O rosto humano do educador

A ciência transforma a educação, muitas vezes, em algo extremamente técnico, árido e sem gosto. Pouco tem a ver com aquilo que se pode considerar a principal tarefa da educação. Roland Barthes dizia: ?Sapiência: nenhum poder, algum conhecimento e muito gosto?. Aliás, o verdadeiro saber tem tudo a ver com sabor. A referência aqui feita à sabedoria poderia ser aplicada à educação, a qual, ultimamente, é tão carente de gosto. Aí está o motivo, talvez, por que a escola, com freqüência, não atrai os estudantes. Não é, pois, de estranhar a indiferença dos alunos, os momentos de algazarra e, até, a debandada da sala de aula.

A Idade Média cunhou uma expressão para se referir aos professores, pedagogos ou tutores dos estudantes: In loco parentum, ou seja, em lugar dos pais. A idéia contém conceito profundamente verdadeiro: os pais são os legítimos educadores dos filhos e a escola é a continuação do lar. Os mestres e a escola são colaboradores, nunca substitutos. Aliás, não é sem razão que os chineses criaram o provérbio: ?Ser professor é ser pai para o resto da vida?. George Gusdorf escreveu: ?O professor é, pois, o herdeiro do pai. Surge como pai segundo o espírito, no momento em que o pai segundo a carne se revela para sempre incapaz de assumir as responsabilidades que a imaginação infantil lhe atribui?.

É preciso ?reencantar? a educação, não deixar que ela perca a dimensão espiritual e mística que implicitamente a acompanha. Mas será isso possível? A experiência pessoal de cada um de nós, como estudante, pode confirmar esta idéia. Quem não se lembra, pelo menos, de um professor educador que marcou a sua formação? Eu, pessoalmente, não posso deixar de mencionar um: é Philip Phenix, com quem aprendi preciosas lições no curso de doutorado em que lecionava, na Universidade de Columbia, em Nova York. Phenix falava sobre as formas de conhecimento e de aprendizagem. Os alunos não perdiam as suas aulas, e a sala estava sempre cheia, também de ouvintes não matriculados, sentados até nos degraus de um auditório maior que lhe foi destinado. Suas aulas eram verdadeiro encantamento.

Quando começava a falar, Phenix se transfigurava de entusiasmo e entusiasmava também os estudantes. Trazia sempre uma sacola cheia de livros, que eram mostrados e citados durante a aula. A tarefa de cada semana era ler um livro por ele indicado, de um bom autor, sempre sobre um tema diferente. A avaliação consistia em fazer um relatório de meia página por semana, a ser entregue no final do semestre, sobre a essência do que tínhamos aprendido. Devia conter as conclusões pessoais que poderiam mudar nossa vida, ou seja, nossa maneira de pensar e de agir.

Lembro-me bem do dia 8 de dezembro de 1980, data em que John Lennon foi assassinado em Nova York. A cidade ficou consternada com a perda. Pelo calendário acadêmico, tínhamos aula com o professor Phenix. Naquela noite, o professor não abriu a sua maleta cheia de livros. Falou, durante as duas horas programadas, sobre os valores, as utopias e as esperanças da juventude e de um mundo novo, personificados pelos Beatles. A todos tocou profundamente.

Educadores como Phenix marcam profundamente as pessoas e reforçam a convicção de que o mestre é o verdadeiro artífice do futuro, pois ninguém pode delimitar até onde avança a sua influência. Tais educadores também nos fazem acreditar ainda mais na educação e na possibilidade concreta que a escola possui de sensibilizar positivamente, de modo indelével, os estudantes, quando seus professores são também educadores e promotores de uma cultura verdadeiramente humanista.

Clemente Ivo Juliatto é reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, membro da Academia Paranaense de Letras e do Conselho Municipal de Educação de Curitiba.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google