Alvaro Dias

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A cada minuto que vivenciamos a crise política em curso, temos a nítida sensação de que os vendilhões apostam na impunidade e trabalham no sentido de escarnecer a opinião pública e o próprio parlamento. É óbvio que o depoimento à CPI dos Bingos do ex-secretário-geral do Partido dos Trabalhadores, Silvio Pereira, na semana que passou, é o exemplo mais atualizado do itinerário da burla. No entanto, o ?espetáculo da mentira? foi e vem sendo encenado num palco mais amplo e com atores e elencos mais numerosos e sofisticados.

A cena de partida teve como locação os jardins de um certo museu parisiense, de onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou o script que iria pautar todos os envolvidos no escândalo do ?mensalão? e de tantos outros ilícitos adjacentes. Naquela entrevista gravada no ?Museu do Ar?, sua excelência assumiu a direção e o roteiro de uma farsa que sepultou os postulados de um governo eleito com a bandeira da ?ética na política?. A partir daquele momento se iniciou um processo de banalização dos princípios éticos e morais que vem ganhando corpo e hoje já assume proporções que nos inspiram alerta.

A fala presidencial difundiu conceitos subvertidos, tais como ?o que é feito no Brasil sistematicamente? deixou de constituir crime ou desvio de conduta, sejam recursos não contabilizados ou a confissão pública de que foi vítima de traição, sem jamais apontar seus detratores. Ao tomar conhecimento do libelo apresentado pelo procurador-geral da República, Antônio Fernando Barros e Silva de Souza, uma denúncia densa e bem fundamentada, o presidente Lula se limitou a cunhar a seguinte frase: ?É forte?.

Nesse contexto, o senso da realidade é um elo perdido. O peso e a medida exata dos acontecimentos foram submetidos de forma amadora à lógica da tergiversação, traduzindo um estilo caricato e fanfarrão de governar.

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Passou a ser corriqueiro assistirmos às prestações de contas pelos descalabros sucessivos de seu governo serem feitas em praça pública, na maioria das vezes fazendo uso de metáforas grotescas e subestimando a capacidade e tirocínio natos do povo brasileiro. Ao agredir sistematicamente os mais elementares preceitos éticos, o presidente Lula foi compelido pelo ruído silencioso das ruas a recuar e, num rasgo de lucidez, qualificou tardiamente o ?caixa-dois? de campanha eleitoral como ?prática condenada pela sociedade brasileira?.

São tantos nós e fios desencapados no mosaico da ilicitude construído ao longo dessa gestão petista que, em muitos instantes, somos obrigados a ser seletivos quanto ao delito a ser o foco da Comissão Parlamentar de Inquérito. Quantas frentes de investigação foram abertas? De Santo André a Campinas (assassinatos de ex-prefeitos do PT), chegando até a República de Ribeirão Preto (incluindo o conluio para realizar a violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo) e agora diante da certeza de que existem pelo menos 100 clones do senhor Marcos Valério, sabemos que a organização criminosa denunciada pelo procurador-geral foi integrada por mais de 40 elementos.

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Mapear, denunciar e combater os desmandos do atual governo não é exatamente uma missão prazerosa. Pelo contrário, para a consolidação e aprimoramento da democracia brasileira, teria sido importante que, na alternância do poder, o Partido dos Trabalhadores tivesse se credenciado como uma opção vitoriosa na gestão federal. Perdemos todos com o malogro do governo Lula.

Em matéria de política externa, o retrocesso é imenso. De um pragmatismo que passou por inúmeras gradações, passamos a adotar a diplomacia da genuflexão automática. No plano interno, o inventário e o espólio de todos os desvios cometidos sob a égide do relacionamento espúrio entre as esferas pública e privada ainda demandam tempo para ser mensurados. De qualquer modo algo está explícito em meio ao nevoeiro que aos poucos se dissipa. O burlão do ordenamento jurídico e de todos os códigos de conduta tem residência e domicílio conhecidos.

O refúgio do burlão é a mentira e sob a falsidade ele se esconde. Mas anotem o que sabiamente o profeta Isaías escreveu: ?Farei do juízo a régua e da justiça, o prumo; a saraiva varrerá o refúgio da mentira, e as águas arrastarão o esconderijo?.

O senador Alvaro Dias é líder da minoria no Senado Federal e vice-presidente nacional do PSDB.