Defrontando-se com a primeira crise de identidade, 25 anos depois da fundação e, num contraponto de difícil assimilação, ao assumir o controle da administração federal, depois de ter sido provado em várias prefeituras importantes e governos estaduais, o Partido dos Trabalhadores não teve força (ou vontade) para assumir perante a nação o compromisso ético de escoimar a péssima imagem herdada dos desmandos praticados em seu nome.
A oportunidade perdida deu-se na eleição do novo presidente da executiva nacional, polarizada no segundo turno entre Ricardo Berzoini (Campo Majoritário) e Raul Pont (Democracia Socialista), com a vitória do primeiro por escassa margem. O presidente interino Tarso Genro foi constrangido a retirar a candidatura face à insistência do deputado José Dirceu em participar da chapa da situação, reconhecido como principal manipulador da alquimia que gerou a última nomenclatura do PT e, mais, figura solar na composição do esquema partidário que levou Luiz Inácio à presidência da República.
A esquerda petista bem que tentou juntar os cacos em torno de Pont, mas a aglutinação foi insuficiente, mesmo que a diferença a favor de Berzoini tenha sido pequena, para desfazer a hegemonia de dez anos do Campo Majoritário. Afinal, prevaleceu por mais um mandato o esquema de José Dirceu, mesmo que a ação tenha resultado no afastamento de personalidades marcantes da organicidade partidária e, por extensão, dos estudiosos mais afeitos à elaboração teórica.
A última reunião presidida por Tarso Genro votou a expulsão do ex-tesoureiro Delúbio Soares, mas o ato de encerramento foi a posse de Berzoini na presidência da executiva nacional. O ex-ministro, provavelmente, terá de retornar à sua banca de advogado trabalhista, porque não lhe faria bem e, tampouco aos seguidores de sua elaboração teórica, ver-se novamente cooptado por um cargo na administração federal.
Aliás, a decepção de Tarso decerto foi agravada, sobremaneira, nem tanto pela derrota da proposta do socialismo democrático representado no PT, mas da recusa dos ideais de refundação de um partido inevitavelmente aspirado para a vala comum da politicalha praticada no País.
Tarso terá bastante tempo para mergulhar nos escritos dos anos da profícua militância que o levou à Prefeitura de Porto Alegre e à disputa do governo do Rio Grande do Sul. Como intelectual respeitado nos círculos acadêmicos, Tarso tem agora um manancial de fatos e evidências com os quais comparar a formulação teórica produzida antes que o partido chegasse ao poder. Comparação frutífera, posto que desanimadora pelas contrariedades que o intelectual vai prospectar na conduta do PT governista.
Os leitores de Tarso, especialmente os tardios, também serão estimulados a investigar as causas desse fracasso monumental, cujo reflexo eloqüente foi a incisiva resposta do referendo sobre o comércio de armas e munição, no qual o não foi o clamor insofismável à falta de governo e à frustração derivada da inapetência de Lula no cumprimento da missão saneadora que a massa lhe confiou.
Tarso escreveu certa vez que o Estado é ?incapaz de responder minimamente às demandas sociais básicas, que é refém do capital volátil e só funciona enquanto máquina para sustentar privilégios?. Seria um exercício útil conhecer o pensamento atual do ex-ministro e síndico da massa falida do PT pós-delubiano, com sua horrenda lista de réprobos como João Paulo Cunha, José Mentor, Professor(?) Luizinho e outros, à luz do ideal de fazer do partido o legítimo ancoradouro da esperança da maioria.
O autor, até por sua coerência, não haveria de negar a paternidade do que escreveu, postando-se na vereda oposta aos que esqueceram o pensamento anterior, pois os responsáveis pela subordinação invertebrada, obviamente fizeram uma leitura leviana e infiel.
Tarso propunha para a esquerda – seria essa a razão de sua derrota? – ?uma estratégia de regeneração dos nossos ideais libertários?, ou seja, uma conjunção capaz de lutar contra a barbárie pós-moderna caracterizada pela destruição do Estado como estrutura capaz de contra-arrestar, para dizer de menos, o aumento galopante da miséria absoluta e do desemprego.
Teria sonhado além da conta?
Ivan Schmidt é jornalista.