Hélio Duque

continua após a publicidade

Na Alemanha os seus dois mais importantes partidos políticos, a social democracia e a democracia cristã, têm o seu núcleo estratégico de pensamento e ação fundamentado nas fundações Frederich Herbert e Konrad Adenauer. Nelas são ministrados cursos intensivos aos promissores quadros que demonstrem talento e vocação para atividade pública. Nesses seminários o estudo da teoria política e uma aprofundada compreensão da realidade é matéria obrigatória. O próprio eleitorado exige essa seleção de formação e competência para o exercício de um mandato parlamentar. Os partidos com rígida disciplina doutrinária, dessa maneira, impedem que uma malta de oportunistas e despreparados ingressem nos seus quadros.

No Brasil, logo após aprovada a anistia pelo Congresso Nacional, no início da década de 80 do século passado e antevendo a redemocratização que viria, a social democracia alemã instalou, no Rio de Janeiro, o ILDES (Instituto Latino Americano de Desenvolvimento Econômico e Social), vinculado à Fundação Frederich Herbert. O seu primeiro dirigente foi Hans Kruger, natural de Berlim e profundamente vinculado a Willy Brandt, o grande artífice do renascimento social democrata na Alemanha no pós-guerra. Além do Brasil tinha atuação em outros países latino-americanos, destacadamente a Argentina, o Chile e o Uruguai, todos sob o tacão de terríveis ditaduras.

O seu conselho consultivo era integrado por acadêmicos, empresários e políticos brasileiros. Entre os acadêmicos Hélio Jaguaribe e Bresser Pereira; nos empresários Marcílio Marques Moreira e Paulo Francine; e na área política, os senadores Fernando Henrique Cardoso e Roberto Saturnino Braga e os deputados federais Fernando Lyra e esse escriba. Anualmente, era realizado em Angra dos Reis o simpósio ?Diálogos Brasil-Europa?, reunindo latino-americanos, europeus e brasileiros, onde a democracia, o desenvolvimento e a justiça social eram o fundamento dos debates. Na Europa, vários encontros foram realizados.

Na área política o objetivo era o estímulo às forças democráticas que lutavam contra a intolerância autoritária que devastava o cone sul. Pensava-se uma opção claramente de centro-esquerda tendo a social democracia como base doutrinária. Infelizmente, com a redemocratização o pensamento social democrata dividiu-se em vários partidos políticos. O PMDB, o PDT, o PT e o PSDB têm as suas alas claramente social democrata. Mas os seus projetos eleitorais estão à frente de um núcleo sério de entendimento comum, quando se trata de propor soluções para os grandes problemas nacionais.

continua após a publicidade

O PSDB é o mais emblemático, por se auto-definir social democrata, mas com desvios regionais que o coloca, em muitos casos, como mera sigla eleitoral. Sendo, como é, um partido de centro-esquerda, integrado por figuras públicas respeitáveis no plano nacional, com forte presença na classe média e áreas intelectualizadas e firme convicção contra o paternalismo, deveria travar o grande debate em torno de idéias e propostas para as grandes questões nacionais. Infelizmente não é o que vem ocorrendo. A base histórica constitutiva do PSDB é comprometida com a modernidade e não com as políticas públicas viciadas e corruptoras sustentadas pelas velhas e novas oligarquias. Em muitos estados as seções estaduais expressam uma pobreza de Jó em termos de idéias e de proposições solucionadoras para os desafios que emergem da sociedade e que não encontram respostas nos governos locais.

O PSDB não é um partido conservador e nem aventureiro. Mas infelizmente a fragilidade da legislação eleitoral, onde políticos mudam de partido como fato normal, também o atingiu. Felizmente sendo um partido nacional, pode exercer a disciplina partidária expressada no seu estatuto.

continua após a publicidade

Ainda agora essa realidade aflora com ímpeto. O candidato presidencial Geraldo Alckmin vem constatando que fora do eixo São Paulo – Minas Gerais, o PSDB não tem capilaridade estadual. Daí a importância dos seus dirigentes e militantes despirem a fanfarronice da auto-suficiência e calçarem as sandálias da humildade.

Nessa hora, quando muitos brasileiros nutrem verdadeiro horror pela ação dos políticos, torna-se oportuno transcrever o desabafo de um parlamentar espanhol social democrata ao jornalista João Mellão Neto: ?Gostando ou não, a política é como o ar que respiramos. Ela se faz presente em toda parte e não se pode viver sem ela. Alguém há de governar a nação. Os aventureiros só prosperam onde os homens de bem insistem em se omitir?.

Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991) e é autor de vários livros sobre a economia brasileira.