O povo que se dane

É plenamente compreensível a reclamação dos bancários em todo o Brasil. Eles pedem, com razão, a reposição de perdas salariais e a melhoria das condições de trabalho. Assim como qualquer classe trabalhadora, eles têm o direito de pedir, e estão também no direito de paralisarem seus trabalhos. Mas a greve, que passou de duas semanas, está complicando a vida de quem não tem nada a ver com isso – os clientes, que entendem as razões dos bancários, mas precisam pagar contas e fazer compras de primeira necessidade. E precisam dos bancos.

A greve envolveu um período do mês em que a maioria dos trabalhadores tem dinheiro em conta. Algumas categorias têm o que se chama de “vale”, o adiantamento de parte do salário no dia 15 ou no dia 20. Como é de praxe atualmente, as empresas depositam estes valores em conta corrente ou conta-salário. E como todo mundo fica? Se o dinheiro do caixa eletrônico acabar, se as máquinas de débito automático pararem, muita gente fica na mão.

Pior que isto é a falta de condições de movimentar as contas. Afinal, não é possível transferir valores de banco a banco, receber talões de cheque (a não ser em bancos que têm talonário nos caixas eletrônicos) ou mesmo sacar dinheiro de aplicações, como fundos de renda fixa e a própria caderneta de poupança.

E para pagar as contas? Como fazer para acertar o licenciamento do carro, o IPVA, o IPTU que vence logo? Os tributos estão chegando, os vencimentos expiram e os bancos estão fechados. Quem se mantinha aberto, como o Bradesco, fechou sob pressão. E o povo que se dane.

É sempre importante repetir: são plenamente justificáveis as demandas dos bancários. É uma categoria que precisa ser valorizada, pela importância de seu trabalho na nossa economia. Mas os bancários têm que lembrar que toda a população depende deles, e que é importante manter serviços básicos para que quem não tem absolutamente nada a ver com a história acabe sendo sacrificado. Aí, a simpatia pública à greve acaba sendo perdida.

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