Talentoso, preparado e criativo, há 20 anos, em 1987, desembarcava no Congresso constituinte um jovem parlamentar de 31 anos de idade, eleito por São Paulo, que iria introduzir uma nova agenda na vida política nacional. Disciplinado e estudioso, colocava na ordem do dia a questão ambiental e o desenvolvimento como faces da mesma moeda. Até então a defesa do meio ambiente e sua importância na vida da humanidade era uma realidade estudada e debatida unicamente nos meios acadêmicos.
Recentemente, lendo a revista Veja, deparei-me com excelente entrevista nas suas páginas amarelas, desse notável pioneiro da luta contra o aquecimento global. Hoje aos 51 anos, o advogado Fábio Feldmann continua a sua cruzada intimorata, idealista e fundamentalmente humanista em favor dos habitantes do planeta Terra.
Durante 12 anos, três mandatos, na Câmara dos Deputados, Fábio Feldmann foi pela atuação, com inegável competência, a grande voz de pregador militante que transformaria a defesa do meio ambiente em uma questão nacional. Hoje integrante do Partido Verde, não mais pretendendo a disputa de mandatos políticos, vem participando de fóruns internacionais sobre clima e meio ambiente no âmbito da ONU. É consultor respeitado mundialmente na condição de ambientalista gerador de um novo paradigma no controle das fontes poluidoras.
O Brasil é o núcleo central das suas preocupações imediatas, daí a necessidade de um despertamento ativo: ?Nos últimos dois anos, apesar de a comunidade científica e a sociedade civil estarem mais atentas ao tema, o aquecimento global continua ausente da agenda dos políticos. Temos de ter a capacidade de promover alianças estratégicas entre o setor empresarial, a sociedade civil e as lideranças políticas esclarecidas?.
Pontualmente, Fábio Feldmann destaca alguns gargalos no Brasil, daí a necessidade de o movimento ambientalista sofrer uma radical transformação em termos de agenda e ação. Apontando:
1. ?Em primeiro lugar, é preciso conter o desmatamento da Amazônia. Somos um dos quatro países que mais emitem gases de efeito estufa. Cerca de 70% de todos os gases emitidos pelo Brasil vem do desmatamento. Isso faz com que nossa situação seja mais insustentável que a da China e a da Índia. Esses países poluem o ar fundamentalmente porque sua matriz energética é baseada em combustíveis fósseis, e qualquer redução nas emissões implicaria a redução da atividade econômica. Não é o nosso caso. Não temos nenhum argumento para justificar esse enorme crime ambiental, daí haver tanta pressão internacional em cima do Brasil. Bastaria que se mostrasse um bom gestor da região para esvaziar a pressão que vem de fora.?
2. ?O Brasil foi um dos grandes responsáveis pelo Tratado de Kyoto, e é importante lembrar que a criação do MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo) foi uma proposta originalmente brasileira. Com ela, empresas de países desenvolvidos que poluem além da conta podem comprar crédito de carbono, que são investidos em iniciativas ecológicas em países em desenvolvimento.?
3. ?O Brasil teria de fazer com a Amazônia o mesmo que se fez com o Ártico, em que pesquisadores de vários países se uniram para produzir um único e vigoroso relatório. O resultado desse trabalho é hoje a maior evidência de que o aquecimento global está em andamento. Em relação à Amazônia, proponho que a diplomacia brasileira se articule com países vizinhos para fazer o mesmo.?
Os governos brasileiros, no presente e no futuro, não podem se omitir, descuidando do meio ambiente. É fundamental definir, com a ativa participação dos setores conscientes da sociedade, um verdadeiro SOS em defesa da natureza. Está em jogo a vida das futuras gerações, porque o efeito estufa afeta a vida humana mortalmente.
O grito de Fábio Feldmann precisa ser multiplicado: ?Nenhuma nação pode ficar o tempo todo cobrando compromissos dos outros se não assume nenhum. É o que fazemos: há um enorme descompasso entre o que propomos aos outros nos fóruns internacionais e o que realizamos dentro de casa?.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.