Hélio Duque
?Procure ser um homem de valor em vez de procurar ser um homem de sucesso.? Einstein
Na década de 70, o mundo se defrontou com duas realidades que iriam gerar graves e dramáticas conseqüências para a economia mundial. Nos Estados Unidos, em 1972, o governo Richard Nixon rasgava o estatuto nascido em Breton Woods em 1945 que estabelecia o padrão ouro como suporte para a emissão do dólar. Em 1974, os países árabes produtores de petróleo detonavam o primeiro choque petrolífero que multiplicava o preço do barril a níveis inacreditáveis. O pânico invadiu o mundo desenvolvido e subdesenvolvido dependente do petróleo como matriz da base energética.
No primeiro trauma originário nos Estados Unidos, o direito de emitir dólares sem a contrapartida das reservas de ouro então depositadas em Fort Knox gerou a emissão desenfreada da moeda. Neste ano de 2007, quando a fragilidade do dólar norte-americano aflora nos mercados mundiais, com permanentes desvalorizações, o fato gerador ocorreu há três décadas com a quebra do padrão ouro. No segundo trauma gerado a partir do Oriente Médio com o seu cartel petrolífero, o mundo dependente do petróleo se viu na condição de se ficar o bicho come, se correr o bicho pega. Essa realidade se agravaria com o segundo choque do petróleo, promovido em 1978, quando os preços impostos pela Opep atingiram patamar recorde. O mundo passou a ser inundado de petrodólares administrados pelo ágil sistema financeiro internacional.
O Brasil nesse quadro se viu numa situação terrível. Dependia em 78% da importação de petróleo. Com a agravante da dimensão continental e ter a sua infra-estrutura de transportes assentada no rodoviarismo, dependente de derivados de petróleo. Atônito, o governo Geisel ao invés da passividade contemplativa, tão comum aos governos brasileiros, buscou alternativa para, no curto prazo, enfrentar parcialmente a dependência ao consumo do petróleo importado.
À época inexistia o Ministério da Ciência e Tecnologia. Essa área estava subordinada ao Ministério de Indústria e Comércio, ocupado pelo saudoso Severo Gomes. Na Secretaria de Tecnologia Industrial o titular era um brasileiro adepto do ensinamento de Einstein para quem um homem de valor é mais importante do que um homem de sucesso. Era o físico baiano José Walter Bautista Vidal que, ao adotar um programa genuinamente brasileiro, tornou-se o pai do Programa Nacional do Álcool. O governo apostou na idéia do Proálcool e por década e meia o automóvel movido pelo etanol chegou a representar mais de dois terços da frota nacional.
A privilegiada inteligência e criatividade de Bautista Vidal foi responsável pela introdução na nossa matriz energética desse notável combustível. O Proálcool na década de 90 começou a perder força quando o preço do açúcar ascendeu e o do petróleo se estabilizou no mercado internacional. Agora ressurge no cenário mundial a importância da introdução do etanol na matriz energética global.
Autor de 14 livros sobre o tema, com traduções em diversos países, Bautista Vidal na sua simplicidade de cientista e humanista de valor, agora volta sua pregação para proclamar que o Brasil pode ter o maior programa energético renovável do mundo. E fundamenta: sol, água, terra e tecnologia são essenciais para a produção de etanol. O Brasil gerador de tecnologia é possuidor daquelas outras bases fundamentais para alargar a sua presença no mundo.
Hoje aposentado na condição de professor titular da Universidade de Brasília, o estimado amigo Bautista Vidal percorre o Brasil pregando o que pode ser a boa nova do etanol para o desenvolvimento nacional. Entendendo que falta vontade política para transformar o País na potência energética do século XXI. É preciso não reincidir na repetição de erros do passado, quando não soubemos valorizar as idéias genuinamente aqui nascidas, reflexo das mentalidades colonizadas.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.