Ricardo Viveiros

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Nesta 79.ª edição, às vésperas de completar seus primeiros 80 anos de vida, o Oscar foi atípico. Quer nos indicados, um pouco de tudo, quer nos premiados, ao fazer justiça ao genial Martin Scorsese e ao lançar a candidatura de Al Gore à presidência dos Estados Unidos, aplaudida pelo público presente ao Teatro Kodak. Isto, sem falar dos talentosos mexicanos, do pretensioso Eddie Murphy e do resistente Peter O?Toole, que, embora todos favoritos, não levaram o prêmio. Até porque o Oscar dado a Babel, pela Melhor Trilha Sonora, ficou com o compositor Gustavo Santaolalla, argentino de nascimento.

Al Gore, todos nos lembramos, há oito anos disputou as eleições com George W. Bush. Ganhou, mas não levou. Pelo menos é o que ainda se comenta nas terras do Tio Sam, sob um clima de desconfiança. A apuração dos votos – no país tido como um dos mais desenvolvidos do planeta – levou quase dois meses. Depois de várias recontagens, por uma pequena diferença e num estado governado pelo irmão de Bush, Gore foi finalmente derrotado.

Gore havia sido vice-presidente de Bill Clinton. Perdida a eleição, dedicou-se à defesa do meio ambiente. Tornou-se um ativista verde. Escreve livros, faz palestras (esteve no Brasil no ano passado, proferindo palestra na entrega do Prêmio Eco, da Amcham – Câmara Americana de Comércio) e foi o apresentador do documentário ecológico Uma verdade inconveniente. Um alerta sobre o perigo do efeito-estufa sobre a Terra, num momento em que o nosso globo tem realmente esquentado, e não apenas pelo espírito belicoso do atual ocupante da Casa Branca, desafeto de Gore.

De maioria democrata, os membros da Academia não apenas premiaram o filme sobre as conferências de Gore como, na festa máxima do cinema mundial transmitida para milhões de pessoas em todo o mundo, abriram-lhe espaço para ser lembrado e aplaudido, quase como um herói. Com direito a elogios de astros, estrelas e diretores com credibilidade e reconhecimento internacionais. E um detalhe que não deve passar despercebido: pela primeira vez, a cerimônia de entrega do Oscar teve ?práticas ambientais inteligentes?. Que coincidência!

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Embora um documentário bem feito, com uma mensagem importante, não fosse o melhor concorrente na categoria em que venceu. De longe, o longa-metragem sobre o Iraque, sem falar dos demais indicados, tem mais qualidade, é melhor. Entretanto, este filme, Uma verdade… já arrecadou cerca de 45 milhões de dólares em todo o mundo (terceiro documentário com maior sucesso na história do cinema) e teve um milhão de DVDs vendidos. O livro que originou o filme, publicado em 2006, é uma continuação do best-seller lançado em 1992 por Gore, chamado Earth in the balance.

?Devo agradecer a Al Gore por nos inspirar, me inspirar, por demonstrar que se preocupar com a Terra não é republicano ou democrata, não é vermelho ou azul, somos todos verdes?, disse, emocionada, a cantora Melissa Etheridge, que também conquistou o Oscar com a canção-tema do filme de Gore, I Need to Wake up. Aliás, por falar no assunto, Gore foi sucesso na recente entrega do Grammy, o Oscar da música internacional, quando surpreendentemente apresentou uma das categorias. E vem aí um concerto global, a se realizar em junho deste ano, que vai se chamar ?Live Earth?, uma alusão ao ?Live Eight?, de 2005. Por conta disso, Gore já ganhou um invejável beijo da bela atriz Cameron Diaz e a adesão dos conhecidos rappers P. Diddy e Ludacris.

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Gore tem trabalhado na surdina, embora insista em dizer que não é candidato a nada. Depois de ter sido considerado chato, pedante e protagonista de uma das piores campanhas eleitorais norte-americanas, ao embarcar de corpo e alma na ?onda verde?, está se tornando um dos mais fortes nomes à sucessão de um Bush que representa exatamente o contrário, em especial para os jovens. E é para esse público importante que Gore criou a Current TV, um atuante fórum de debates com grande participação da juventude, encontrado no site Yahoo! e em várias TVs a cabo.

A edição da respeitada revista britânica The Economist, que está circulando, traz um interessante comentário: Gore é a opção ?ideal? para os democratas, por sua oposição às guerras (em especial a do Iraque), sua luta pelo meio ambiente e, o mais importante, seu (e de muitos compatriotas) imenso desejo de acertar as contas dos votos mal apurados com Bush. ?Que melhor forma de varrer a era Bush do que substituí-lo pelo homem que deveria ter sido presidente?, ressalta a revista. Eu concordo, embora preferisse um Oscar cinematográfico e não de marketing político.

Ricardo Viveiros, jornalista e escritor, é empresário de Comunicação Corporativa. Acaba de lançar um novo livro: Da Arte do Brasil.