Hélio Duque

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Líder autêntico da classe operária, ele foi admirável organizador de uma luta sem quartel contra a ditadura que infelicitava a Polônia, por décadas. De uma resistência localizada em um grande centro industrial espraiou-se pela totalidade do território nacional. No início, as condições de trabalho e as reivindicações salariais foram as pedras de toque para a grande arrancada que o transformaria no grande líder dos trabalhadores. Sua firmeza, integridade e correção o transformaram numa liderança nacional respeitável. Passou a ser o grande pólo aglutinador contra o governo militar que se apossara do poder e colecionava fracassos na administração estatal.

Sua indiscutível liderança popular mobilizou a sociedade, adormecida por décadas de opressão e medo. Os trabalhadores passaram a reivindicar melhores condições para o exercício das suas atividades produtivas. A universidade e os intelectuais despertaram para a militância política, o mesmo ocorrendo com a juventude. A Igreja Católica canalizou sua pregação na fé e na organização militante das suas paróquias em apoio à luta iniciada pelo bravo e corajoso líder carismático. Enfrentava o Estado ditatorial de peito aberto. Era uma epopéia de um novo tempo, onde aquele valoroso povo rompia com a passividade e demonstrava não mais ter medo dos burocratas autoritários sustentadores do coletivismo sem alma.

A velha e heróica Polônia despertava. Quem a conhece, jamais esquecerá a beleza milenar de Cracóvia. Tampouco a majestade centenária de Varsóvia. Onde as botas totalitárias do general Jaruzelski, o ditador, infundiam medo e terror. Mas foi em Gdansk que renasceu a semente da liberdade e a fúria santa de se lutar pela democracia. A coragem do operário Lech Walesa ao liderar e comandar as greves nos grandes estaleiros de Gdansk iria mudar para sempre a realidade política dos poloneses. O sindicato ?Solidariedade? seria o grande núcleo aglutinador de uma luta pela libertação nacional do cotidiano burocrático prevalente desde o final da II Guerra. Não foi fácil. Mas a obstinação de um povo quando deseja se libertar da tirania é coisa muito séria. Perseguições, prisões, torturas, exílios não arrefeceram o ânimo. Era um tempo em que o Muro de Berlim delimitava as fronteiras da Europa Ocidental e Europa Oriental. A resistência polonesa foi pioneira no leste europeu. No Vaticano, a presença de Karol Wojtyla, sagrado papa João Paulo II, era um aliado de fundamental valor.

Anos depois, com o esfarelamento do império soviético, o povo polonês em eleições democráticas elege Lech Walesa para a chefia do governo pelo qual tanto lutou. Presidente da República formata uma administração com intelectuais progressistas, sindicalistas e egressos dos movimentos religiosos. Carregado de idealismo e intenções sinceras de servir ao seu povo, o seu governo inicialmente colecionou alguns êxitos. Infelizmente, quando se submeteu ao monitoramento do Fundo Monetário Internacional, a economia sofreu um choque de gestão que iria aniquilar a esperança alimentada por Lech Walesa na sua campanha eleitoral. Ao paraíso das promessas ofertadas em praça pública, defrontou-se com a realidade, que é indomável e leva à frustração recorrente os governos que prometem demagogicamente aquilo que não podem cumprir. O final do seu governo foi melancólico. E ao encerrar a sua administração de maneira honesta, mas penitente, proclamou: ?Não adianta ganharmos as eleições porque não conseguimos mudar as políticas públicas?.

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Na Polônia contemporânea, Lech Walesa é referência indiscutível. Administra a Fundação Lech Walesa, tributo a um admirável lutador. Politicamente é uma figura de repercussão limitada, fruto da frustração causada pelo seu governo, onde o medo venceu a esperança, reconhecida pelo próprio Walesa, ao constatar a impossibilidade de implementação das reformas que prometera.

O seu grave erro foi lançar expectativas impossíveis de se concretizarem, por mais sinceras e verdadeiras que tenham sido as suas intenções de líder popular. Não pecou por malabarismos ou desvios de conduta dos seus auxiliares, ou mesmo do movimento ?Solidariedade?. Ou das grandes centrais sindicais. Foi claramente o despreparo para o exercício do poder.

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O mito Lech Walesa é hoje parte inseparável da história da Polônia moderna. Com inegável merecimento ao valente lutador pela liberdade do seu povo.

Hélio Duque é ex-deputado federal.