Ivan Schmidt
O despojado Lula, líder natural e espontâneo dos operários da Vilares, em São Caetano do Sul, no ABC, onde iniciou a carreira de líder sindical dos metalúrgicos, aquele nordestino arretado que almoçava às pressas, com duas ou três doses de pinga de uma garrafa particular (cada um tinha a sua), e ainda disputava um racha antes de voltar para o turno da tarde, deve estar sentindo uma tremenda nostalgia.
Com a criação do Partido dos Trabalhadores, realização que confirma sua vocação política e capacidade inata na arregimentação dos companheiros (FHC era um dos fascinados pela liderança de Lula), longa estrada foi percorrida passo a passo até galgar o degrau mais alto, a presidência da República. Feito de raro fulgor, porque não é todo dia ou em qualquer país que um ex-operário torna-se o chefe supremo da estrutura institucional, jurídica, política e produtiva de uma potência como o Brasil.
A vitória de Lula foi festejada em muitas latitudes e nem tanto em outras, pela obviedade do choque causado pela enjoativa quebra da hegemonia de poder exercida pela oligarquia industrial ou agrária, depois do tenebroso interregno militarista, e nos oito anos anteriores ao presidente atual, por respeitável figura do círculo acadêmico.
Numa república cartorialista como a nossa, na qual a perpetuação dos privilégios e a concessão de favores a um grupo minoritário acabou propiciando a gestação da categoria dos plutocratas, é traumático sequer imaginar que a plenitude do poder e representatividade das instituições do Estado moderno foi confiada a um ex-torneiro-mecânico formado pelo Senai.
Há na constatação um paralelo curioso e instigante. E ele está nas duas eleições de FHC, a rigor, primeiro intelectual digno da qualificação a chegar à presidência da República. Egresso do ambiente universitário, com marcante carreira nos campos da sociologia e da ciência política, professor e teórico respeitado no Brasil e no exterior, com uma diferença quase imperceptível: FHC também rondou o palanque do pequeno estádio da Vila Euclides antes de ir para o PMDB, pelo qual ganhou uma suplência de senador.
Lula falava aos trabalhadores antes que começassem mais uma jornada, engolia buchadas e chegou a experimentar o xadrez da polícia política dos biônicos paulistas; FHC dava aulas na USP ou se auto-exilava em Santiago do Chile e Paris. Na capital das luzes, no recesso sacrossanto da Sorbonne, enquanto Lula traçava suas biritas, deixou-se impregnar pelo charme da social-democracia, cujo hermetismo codificado passou a conhecer como poucos, na condição de diligente estudioso da teoria política. Anos depois, senador da República, abandonou o partido-ônibus (sua memorável definição do PMDB) para organizar o PSDB ao lado de Covas, Montoro, Richa, Serra e outros tantos.
O PT conquistava governos estaduais e prefeituras importantes País afora e infernizava a vida dos presidentes, incluindo o intelectual FHC, graças a uma bancada aguerrida onde pontificaram José Dirceu, Plínio de Arruda Sampaio, Hélio Bicudo, Florestan Fernandes, Eduardo Suplicy e até Virgílio Guimarães. Dava gosto ver a habilidade com que se construía a barragem da estratégia política, posta em operação pela brigada congressual, homens insuperáveis na interpretação e manejo dos regimentos quando se tratava de usar empecilhos legais para dificultar a votação de matérias importantes.
Quando se sonhou (e foram muitos os sonhos) com a possibilidade de um governo presidido por Luiz Inácio, alguns chegavam a escalar o ministério ideal. Ao eleger-se prefeita de São Paulo, Erundina escolheu um secretariado com status de autêntico ministério. O PT era governo na maior cidade da América do Sul e tinha de mostrar serviço, dando continuidade a seu projeto de poder.
Dois anos e três meses depois de chegar lá, Lula está às voltas com a reforma do ministério. Assunto que não pode tratar como comissário de fábrica no ABC, escolhendo segundo critérios pessoais de amizade e confiança os auxiliares diretos. Mas, daí a ter de negociar a composição do alto escalão com luminares da vida pública brasileira da estirpe de José Sarney, Renan Calheiros, Severino Cavalcanti, José Janene, Roberto Jefferson e quejandos, é purgar até os pecados cometidos nos escaninhos mais ocultos da cachola.
O aspecto acabrunhante, dado esclarecedor da atual conjuntura, como diria o supimpa Stanislaw Ponte Preta, é que o próprio Lula está manietado pelas regras do jogo. Se não cede o espaço requerido pela base, que derrotou seu candidato à presidência da Câmara só para exibir a força, Lula não governa. Essa reengenharia de origem duvidosa atende pelo ilusório nome de governabilidade, cuja obrigação política é conquistar e manter a qualquer preço. Especialmente quando se pensa num segundo mandato.
Ministério ruim, formado por nomes que o eleitor nem consegue lembrar, em breve poderá acender refletores para Roseana Sarney, Pedro Henry, Romero Jucá ou… quem sabe… Quincas Berro d?Água, Antônio das Mortes e Augusto Matraga? Seria muito melhor.
Ivan Schmidt é jornalista.