O mínimo esperado

O mundo parou e se voltou para a bucólica Sankt Pölten, no interior da Áustria (a sessenta quilômetros da capital Viena). Foi lá o julgamento de Josef Fritzl, 73 anos, acusado dos crimes de incesto, estupro, privação de liberdade, coação grave e homicídio por negligência (a chamada omissão de socorro). Após quatro dias de sessões, ele foi considerado culpado – já admitira os crimes na quarta-feira – e pegou a pena de prisão perpétua, a maior na justiça austríaca.

O resumo de tudo que aconteceu nos últimos dias foi feito pelo advogado de defesa, Rudolf Mayer, que afirmou que a sentença era “lógica” após todos os crimes cometidos por Fritzl.

É de se imaginar a situação de Mayer. O advogado viveu, certamente, alguns dilemas éticos desde que foi nomeado como defensor de Josef Fritzl. De um lado, o rigor do Direito, que (ainda bem) prevê o exercício amplo de defesa para quem quer que seja. De outro, o sentimento natural de quem convive com um monstro, e que certamente, no seu âmago, também desejava a condenação. Mas Mayer fez seu trabalho, foi até onde podia e terminou o caso de forma digna.

Não se pode dizer o mesmo de Fritzl. As atitudes que tomou nos últimos anos, desde que surtou e confinou a filha e os filhos que teve com ela dentro do porão de casa, sem informar aos outros filhos e à esposa, são inomináveis. Cometer apenas um dos delitos – repetimos: incesto, estupro, privação de liberdade, coação grave e homicídio por negligência – já seria terrível. Todos eles combinados, e somados a uma reação simplista e dissimulada quando da descoberta dos crimes, coloca o senhor Josef Fritzl (chamado de “monstro da Áustria”) na lista dos maiores vilões da história recente.

A vida em Amstetten, a cidade em que morava Fritzl, e onde durante 24 anos Elisabeth Fritzl viveu presa e teve sete filhos em um calabouço sórdido, sem janelas e de teto baixo, nunca mais será a mesma. Para um lugarejo encravado no centro da Europa, uma história como essa ficará como uma cicatriz profunda. Mas com o final escrito nesta semana, com a prisão perpétua do “monstro da Áustria”.

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