O mesmo pensar

Eram tantos Severinos, iguais no mesmo pensar. Quando João Cabral de Mello Neto lapidou esse pensamento, na épica Morte e vida severina, estava se antecipando àquilo que seria uma realidade política muitas décadas depois.

A ficção transformou-se em realidade. Eis que na presidência da Câmara dos Deputados está Severino e um baixo clero parlamentar, iguais no mesmo pensar. É o retrato sem retoque de um tempo brasileiro. Histriônico e folclórico, o deputado Severino Cavalcanti vem, por imprudência e despreparo, contribuindo, com inegável eficiência, para um desgaste, sem paralelo histórico, na vida daquela casa do parlamento nacional.

Os últimos acontecimentos envolvendo a mercantilização do mandato parlamentar é fato deplorável na história republicana brasileira. Os parlamentares éticos e sérios que fazem da atividade política o ato nobre de servir ao bem comum sentem-se agredidos e violentados nessa enxurrada de desvios morais. Onde a corrupção aflora com a força de um tornado, envolvendo integrantes do poder. A sociedade a tudo assiste frustrada, decepcionada e irada. Aprofundando o divórcio entre os representantes e representados. Uma clara agressão aos fundamentos do Estado democrático.

O presidente da Câmara dos Deputados parece desconhecer a força da opinião pública. Representante típico dos grotões do Brasil, parece ignorar o outro Brasil. Acredita unicamente na aparente força de um baixo clero que invadiu a cena política nacional, como nunca antes havia se visto no País. Na raiz dessa deformação estão os inexpressivos partidos políticos brasileiros. Sem doutrina, sem coerência e sem fidelidade a princípios, os nossos partidos são os principais responsáveis pela desmoralização da ação política. Prevalece o individualismo dos chamados líderes providenciais. São grêmios eleitorais, sem vida orgânica, onde a utilidade suprema é servir para registros de candidaturas. A credibilidade é dispensável, desde que tenha popularidade. É a inversão do conceito clássico da representação popular.

Ao aventureiro investido de mandato a principal preocupação passa a ser o patrimonialismo. É a emergência de uma nova classe, onde o vale-tudo é desenvolvido com absoluto despudor. Para muitos, a política passou a ser uma maneira fácil de prosperidade e enriquecimento pelo usufruto dos recursos públicos. E isso tem nome: é corrupção.

Agora na ?tsunami de corrupção? que o Brasil está engasgado, tentam uma reforma política de meia-sola. Um paliativo. Uma reforma em profundidade onde o voto distrital misto, a fidelidade partidária, a cláusula de barreira, o financiamento público e a exigência de partidos políticos orgânicos e doutrinários, representando as diferentes correntes do pensamento nacional, é do que o Brasil precisa.

Mas há um insondável mistério a obstaculizá-la. Em 1994, quando Fernando Henrique foi eleito, a reforma política era um objetivo. Ficou na intenção. Eleito em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva também a preconizava. Igualmente ficou na intenção.

Hoje as bancadas corporativas são mais importantes do que os partidos políticos. E aí é que reside o perigo. A corporação do baixo clero é a mais numerosa e o presidente da Câmara é o seu mais destacado líder. A visão da política miúda, dos parlamentares despachantes, é a sua principal característica. Não se formula, não se pensa estrategicamente, acomoda-se à mediocridade do dia-a-dia, onde não se debate ou se buscam soluções para os problemas gravíssimos da conjuntura nacional. Daí o desencanto que começa a freqüentar o cotidiano daquela centena de homens públicos competentes, éticos e sérios investidos pelo voto popular dos mandatos que cumprem com exação. Muitos deles dispostos a não disputar novos mandatos.

Enquanto isso os Severinos se multiplicam na igualdade de um mesmo pensar.

Hélio Duque é ex-deputado federal.

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