Parece literatura de cordel, de resto, tão amada e cantada na região por homens e mulheres simplórios mas não imbecis, nas suas feiras e folguedos populares. O título de mais um desses intermináveis folhetins poderia ser: ?A peleja do bispo sertanejo contra o dragão engolidor das águas do Velho Chico?. Se ainda não saiu, decerto não vai demorar, porque há muito o sertão nordestino não vivia drama de tal empolgação quanto o protagonizado pelo bispo Luiz Cláudio Cappio, da diocese da Barra, encravada num inóspito pedaço da Bahia banhado pelo rio da unidade nacional.
Com 2.863 km de extensão, o Rio São Francisco, batizado com o nome do santo do dia, em 4 de outubro de 1501, pelo aventureiro Américo Vespúcio, primeiro branco civilizado que avistou sua foz, nasce da Serra da Canastra (MG) e, além do território mineiro, deixa passar suas águas por 504 municípios de Goiás, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. A corrente é abastecida por 80 afluentes perenes e 27 intermitentes e sua bacia cobre cerca de 640 mil km quadrados, com vazão média de 2.850 metros cúbicos por segundo.
Há 30 anos, o bispo Cappio está acostumado a ver desfilar diante dos olhos a passagem das águas do velho rio, tornando-se diligente estudioso de seus problemas e riscos imediatos. Foi em 1997 que dom Luiz assumiu o bispado da Barra, mas antes disso, em 1992, realizou uma peregrinação ao longo do rio para alertar as autoridades e os ribeirinhos dos achaques que causariam a morte inexorável do São Francisco. Como fruto das observações nasceu o livro O Rio São Francisco – Uma caminhada entre a vida e a morte, de sua autoria.
Portanto, a luta desse humilde pastor do sertão, levada ao extremo da greve de fome em protesto pela transposição das águas do São Francisco para as bacias do Nordeste Setentrional, não foi como muitos podem ter crido, um ato tresloucado, mesmo que ao pé da carta em que proclamou o intento de entregar a vida caso não houvesse a reversão do referido projeto, escrevesse: ?Quando a razão se extingue, a loucura é o caminho?.
Discutido desde o segundo império, o projeto de transposição das águas do São Francisco entrou e saiu das gavetas governamentais, de acordo com a necessidade mais ou menos premente de traçar estratégias administrativas, políticas e eleitorais. Ressuscitado nos governos Sarney e Collor, o projeto acabou sendo novamente engavetado pela série de impropriedades técnicas e flagrante oportunismo de parte dos indefectíveis ?líderes? regionais. Mas, voltou com toda força no governo Lula, à falta de um grande projeto de engenharia para a região historicamente mordida pela seca e, mera coincidência, planejado para abranger um espaço em que vivem 13 milhões de brasileiros.
A obra está orçada em R$ 4,5 bilhões e se resume na construção de 750 km de canais para a captação de 2,5% das águas do São Francisco entre as barragens de Sobradinho (Bahia) e Itaparica (Pernambuco), por meio de dois sistemas independentes que levarão o precioso líquido para as bacias setentrionais localizadas nos estados do Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba. Segundo os opositores do projeto, água não priorizada para matar a sede de milhões de nordestinos, mas para irrigar imensos projetos voltados para o agronegócio, já instalado na região.
O gesto extremo de dom Cappio, que levou o governo a adiar o início das obras de escavação dos canais (houve pronunciamento da Justiça Federal da Bahia proibindo as obras), na verdade, foi antecipado pelo contencioso levantado pelo Comitê da Bacia do São Francisco, órgão oficial do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, formado por representantes da sociedade e das três esferas de governo. A posição de ressalva à execução do projeto foi endossada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em outubro de 2004, em evento internacional sobre a transferência de águas entre grandes bacias hidrográficas, realizado em Recife.
Estudos sobre os recursos hídricos da região a ser beneficiada pelo projeto já exibiam situação inversa ao que sempre se pensou: a oferta potencial de água é maior que o consumo. Isso foi comprovado por análises percucientes feitas no Ceará e no Rio Grande do Norte e em outros estados, onde há imensos lençóis aquáticos subterrâneos suficientes para atender toda a demanda. O que não se adotou até hoje, na verdade, foi um sistema eficiente de gerenciamento desses recursos, aliás, uma constatação óbvia quando se perpassa a história do povo nordestino.
Assim, a dúvida pertinente dos opositores era e continua sendo a existência de água no São Francisco em quantidade suficiente para justificar a execução de projeto desse porte diante de alternativas de menor custo, mas sem tamanho potencial eleitoreiro. Além disso, o necessário e complexo processo de investigação dos impactos ambientais, segundo instituições de prestígio nos meios acadêmicos, ainda não respondeu satisfatoriamente grande parte das questões técnicas levantadas. E o grande clamor acabou sendo a necessidade de revitalização do histórico rio, na maior parte do curso assoreado e profundamente poluído por esgotos sanitários urbanos e rejeitos industriais.
Na verdade, essa foi a principal bandeira do bispo da Barra. Em primeiro lugar, o governo deveria abraçar a rigorosa obrigatoriedade de devolver a vitalidade das águas para, só então, pensar na sua transposição. Logo apelidado pela população de ?Transamazônica de Lula?, em alusão à estrada que cortou a floresta, mas foi novamente engolida por ela para ligar o nada a coisa nenhuma, a transposição das águas do São Francisco – que vai custar bilhões aos cofres públicos – poderá ter o mesmo destino de conhecidos fracassos monumentais do governo.
Como se percebe, o problema é de difícil solução porque joga com a vida de milhões de habitantes do semi-árido nordestino e seu escopo é transpor, no máximo, 2,5% das águas do Velho Chico (63 mil litros por segundo), do excesso da barragem de Sobradinho. Contudo, é válida a ponderação de José Aroudo Mota, diretor-adjunto de Estudos Regionais e Urbanos do Ipea: ?Já existem técnicas para detectar os impactos e modos apropriados de minimizá-los, mas devemos analisar a transposição do Rio São Francisco com responsabilidade e parcimônia, pois sabemos que a natureza não perdoa e cobrará do povo da região a degradação do ambiente?.
Ivan Schmidt é jornalista.