Norberto Bobbio, um dos maiores pensadores italianos do Século XX, sentenciou que existem homens cujo empenho político é sempre movido por um profundo sentimento de insatisfação e de sofrimento perante as iniqüidades das sociedades contemporâneas.
Íntegro, coerente, competente, corajoso e fraternal, Mário Covas era uma figura inesquecível na querência dos amigos e cabe, pela sua dimensão histórica, na integralidade do notável conceito de Norberto Bobbio. Foi um homem público diferente. Engenheiro civil exercia a racionalidade lógica como um poderoso artefato para a inserção no cotidiano político. Inimigo da demagogia e do populismo, que tantos males causaram e causam à vida nacional, fazia da atividade pública o sentido maior de lutar competentemente para ser um servidor do seu povo. Para ele, o ofício de ser político não era outro senão empenhar-se na construção de uma sociedade brasileira mais humana, fraterna e generosa. Tinha horror e desprezo aos políticos que buscam incorporar valores e patrimônio, pela traição aos compromissos populares.
Deputado federal e líder do MDB em 1968, comandou a resistência contra a cassação do deputado Márcio Moreira Alves, exigência do governo autoritário do general Costa e Silva. Seu discurso da tribuna em defesa da liberdade é uma peça histórica, desaparecida por mais de 20 anos, mas agora reincorporada aos acervos da Câmara dos Deputados. Cassado, voltou à profissão de engenheiro trabalhando em funções gerenciais de empresas privadas de construção e projetos. Em 1979, com a aprovação da anistia, recuperou os direitos políticos.
Reiniciaria uma nova caminhada. Assume a presidência do PMDB de São Paulo e em 1982 se elege deputado federal. Eleito governador, Franco Montoro o convoca para ocupar a Secretaria de Transportes. Permanece pouco tempo. Assume a Prefeitura de São Paulo e realiza uma administração inovadora. Realiza obras fundamentais. Na sua gestão, a Prefeitura amplia de 28 para 39% a participação da área social no orçamento. Em 1986, com a maior votação já registrada, à época, elege-se senador com quase 8 milhões de votos.
Na Assembléia Nacional Constituinte, Mário Covas é eleito líder do PMDB e cumpre missão histórica. Tempo de conflitos e toda ordem de divergências pelos interesses que despertava a nova Constituição, a sua firmeza e liderança na harmonização desses choques foi marcante. Candidato à presidência da República, em 1989, já agora no PSDB, partido nascido da dissidência peemedebista, o Brasil prefere Fernando Collor.
Dois anos depois, na primeira grande crise do governo Collor, Mário Covas vai impedir o que teria sido o suicídio do PSDB. Uma ala do partido, com Fernando Henrique Cardoso a liderá-la, defendia a adesão àquele desastrado governo. Foi a firmeza e coerência de Covas que impediu o ?cambalacho?. Talentoso e arguto, enxergava longe.
Em 1994, com o Estado de São Paulo em situação falimentar após às administrações de Orestes Quércia e Luiz Antônio Fleury, Covas elege-se governador e herda autêntica massa falida. Por exemplo, o Banco do Estado de São Paulo, sob intervenção do Banco Central, em função de crescentes dívidas não pagas. Era o caos econômico, administrativo e financeiro. Ao lado do seu vice-governador Geraldo Alckmin, escolha pessoal do próprio Mário Covas, foi iniciada a verdadeira estruturação e saneamento do grande Estado brasileiro. A impopularidade crescia, mas Covas tinha consciência do que fazia. Aí reside a diferença entre o político tradicional e o estadista.
Em 1997, quando o governo FHC propõe a reeleição, a voz de Mário Covas se ergue contra a tese achando que não era uma boa idéia. Falou sozinho contra a emenda da reeleição. Achava que o governante eleito ficaria exclusivamente voltado para a reeleição e tentado a usar e abusar da máquina administrativa objetivando o novo mandato. Exatamente como ocorreu e está ocorrendo no Brasil.
Em 1998, não desejava disputar a reeleição. Resistiu, mas se curvou à convocação dos seus companheiros. Impôs uma condição: se desincompatibilizaria do cargo de governador. Em todo o período da disputa eleitoral o governo foi ocupado pelo vice, Geraldo Alckmin. Derrotaria Paulo Maluf com um total de 55% dos votos válidos.
Aprofundaria a sua inovadora administração com o integral saneamento econômico e financeiro e o alargamento dos investimentos em infra-estrutura e um programa revolucionário de modernização. A fatalidade da vida que, quase sempre, alcança aquelas figuras providenciais, iria atingir Mário Covas. Doente, mas dotado de um ardor cívico incomum, nos dois anos seguintes administra o valoroso Estado com vigor de adolescente. Enfrentando os desafios e até sendo agredido fisicamente quando enfrentou de peito aberto a greve dos professores estaduais. Nesse triste tempo brasileiro, quando a criatura sempre trai e hostiliza o criador, tinha ao seu lado na vice-governadoria a ética e a seriedade franciscana de Geraldo Alckmin, que continuará e ampliará com exemplar seriedade a inesquecível e empreendedora administração de Covas. Falecido em 2001, aquele grande companheiro e amigo deixou o exemplo que deveria ser seguido pelos homens públicos comprometidos unicamente com a construção de um mundo melhor.
As lembranças e recordações aqui registradas nasceram de uma recente conversa, por uma tarde inteira, que tive com Nydia Covas Barrionuevo, irmã daquele inesquecível brasileiro. Herdeira dos mesmos valores éticos, morais e políticos e firme lutadora por um Brasil decente e justo.
Hélio Duque é ex-deputado federal.