Miguel Jorge

continua após a publicidade

O agronegócio como instrumento de espoliação de pequenos proprietários rurais, tema debatido à exaustão por políticos, intelectuais, trabalhadores, empresários, etc., acaba de ser requentado pelo bispo d. Tomás Balduíno, primeira voz a sair em defesa do bando de sem terra que depredou a Câmara dos Deputados. Conselheiro da Comissão Pastoral da Terra, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e popular entre os sem terra, exortou a sociedade a compreender ?o lado deles? – dos que premeditaram e executaram o ataque ao Legislativo. ?Os congressistas são fariseus que Jesus condenou por hipocrisia?, declarou, recorrendo à Bíblia, e acrescentando, em seguida, que ?esse é um Congresso hipócrita e sem autoridade moral?, formado por ?pessoas não dignas do cargo que ocupam?.

O bispo expôs um pensamento que coincide em gênero, número e grau com o dos sem terra sobre a reforma agrária: para ele, o agronegócio conspira contra os pobres, em vez de resultar, como de fato resulta, de exigências tecnológicas e econômicas inseparáveis de uma organização social cuja meta é produção, renda, emprego, etc., além de mais comida para todos.

Nada contra o fato de ele falar bobagens, considerando-se que vivemos numa democracia, que outros segmentos sociais pensam como ele, e que o Congresso – conquista do povo – é exatamente o espaço no qual o trabalhador rural deve lutar por suas aspirações. Mas, nas democracias, isso acontece somente pelo voto ou pela negociação, e não pela violência planejada e executada por baderneiros liderados por irresponsáveis e inconseqüentes.

A menos que os brasileiros escolham o caminho do arbítrio e da anarquia, com todos os seus riscos, principalmente para os sem terra – com reflexos nocivos na reforma agrária -, para ser conseqüente com esses conceitos, o bispo d. Tomás Balduíno poderia contribuir para arejar as cabeças das lideranças do MST, MLST e movimentos afins. Por exemplo, designando uma comissão da Pastoral da Terra para assessorá-los num processo de negociação de suas reivindicações, ou mesmo propondo à CNBB que acompanhe a tramitação de suas demandas.

continua após a publicidade

Se agisse assim, talvez os trabalhadores sem terra andassem mais depressa no rumo de uma reforma agrária legal e constitucional, que respeitasse as propriedades privadas produtivas e ocorresse sem traumas para o governo Lula.

Miguel Jorge, jornalista, é vice-presidente de Recursos Humanos e Assuntos Corporativos e Jurídicos do Santander Banespa.