O jumento mexicano

Após várias visitas ao México, uma nação fascinante, resolvi enveredar pelo seu interior para conhecer melhor a sua realidade. Foi quando numa área rural defrontei-me com uma cena surrealista: naquele ?pueblo? um jumento bebia seguidas garrafas de cerveja. O campônio que dele cuidava incentivava o consumo e pedia aos visitantes para patrocinarem o largo consumo da bebida para o animal. A certa altura aquele camponês interrompe o festival do absurdo e proclama: ?está borracho!?

O episódio mexicano veio à lembrança por dupla razão. A primeira remete à realidade política brasileira. A segunda, à dominação oligárquica na política mexicana conduzida pelo PRI (Partido Revolucionário Institucional) que prevaleceu por 70 anos, dominando todos os setores e poderes da vida nacional.

Recentemente o jornalista Reinaldo Azevedo publicava importante texto de reflexão sobre a síndrome de Estocolmo, o PSDB e o governo Lula. Nele alertava para o perigo dos tucanos serem seqüestrados pelos filolulistas em franca ascensão na sua estrutura partidária. Sua conclusão é direta: ?Aí o partido estará pronto para trocar de símbolo: em vez de tucano, um jumento bem orelhudo?.

Por sua atualidade, motivou-se a falar do Brasil, do México, das suas realidades institucionais e dos equívocos oportunistas da política brasileira. A micro-política da adesão sem convicção ao poder dominante nunca antes chegou aos níveis atuais. As metamorfoses ambulantes usam o roqueiro Raul Seixas para justificar o adesismo. O trecho adonado é esse: ?Prefiro ser essa metamoforse ambulante/ Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo/ Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes?.

O PSDB não pode ser uma metamorfose ambulante, sob pena de negar-se assumindo a mudança do seu símbolo. A sociedade brasileira conferiu ao seu candidato, em 2006, 40 milhões de votos. É preciso respeitar esses brasileiros. A isso acrescente-se que os dois maiores colégios eleitorais do Brasil, São Paulo e Minas Gerais, são governados pelo partido. Relações administrativas civilizadas com o poder central é normal no Estado democrático. Somente nas sociedades primitivas esse diálogo é interditado.

A estratégia política do governo Lula nesse segundo mandato vem sendo, pela via do clientelismo, de construção de uma ampla base de sustentação. Não se enganem: é uma base porosa. Enquanto prevalecer o ?é dando que se recebe? ela se sustentará. Como no passado. Aos primeiros ventos de mudança de tendência da sociedade, se evaporará. Tem prazo certo para ser sepultada.

Na política, desde a antigüidade, é preciso distinguir popularidade e credibilidade. O PSDB não pode ser conduzido para uma posição passiva de espectador privilegiado. O Brasil exige que assuma a identidade de um partido de oposição. O eleitorado, em 2006, definiu que essa deve ser a sua postura. Negá-la é romper com a sua história ética e doutrinária.

Para os adeptos da teoria da metamorfose ambulante, vejam a tragédia do grupo político único que dominou o poder no México por sete décadas. O PRI, verdadeiro partido único, se assentava nos fundamentos da revolução mexicana que teve as históricas figuras de Francisco Madero, Pancho Villa e Emiliano Zapata. Até o final da década de 30, com o governo do general Lázaro Cárdenas, respeitou o ideário reformista. Nas décadas seguintes traiu os fundamentos reformistas, assumindo o poder, em todos os níveis, pela via da corrupção nos negócios estatais. O PRI detinha a presidência da República, em rodízio de nomes; os governos provinciais; os municipais; as universidades; os sindicatos; e as entidades patronais. A corrupção na estrutura pública tornou-se institucionalizada. Alargando-se por todos os demais setores da vida nacional mexicana. Quando aparecia um núcleo oposicionista, era cooptado pelo ?é dando que se recebe?.

A ruptura só se daria com a eleição, pela oposição, de Vicente Fox e, agora do seu sucessor Felipe Calderon. A longevidade do poder do PRI só foi possível pela inexistência de uma oposição coerente e afirmativa. Eis uma lição que não pode ser esquecida. Sobretudo para os brasileiros nos dias atuais.

Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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