Hélio Duque

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Se me fosse dado decidir se devemos ter um governo sem jornais, ou jornais sem governo, não hesitaria um momento em preferir a última.

Thomas Jefferson

Terceiro presidente eleito na história norte-americana, após ter sido um dos ?pais fundadores? dos EUA, Jefferson definiu a importância da liberdade de imprensa. É a semente fecundadora do Estado de Direito.

Na última segunda-feira, quando a Assembléia Legislativa do Paraná outorgava o título de cidadania ao jornalista Mussa José Assis, fui até lá, para abraçar e parabenizar o competente homem de imprensa. Imediatamente pela memória repassou aquele conceito jeffersoniano. Profissional aplicado e incansável operário da redação, na sua simplicidade o homenageado escreveu e escreve permanentemente um tempo de liberdade na imprensa paranaense. Ao outorgar-lhe a láurea de ?Cidadão do Paraná?, o Legislativo estadual estava tributando, num ato de justiça, reconhecimento a um profissional que, sem favor, integra a galeria dos homens de imprensa que fizeram da profissão o ofício de servir ao bem comum.

Há mais de três décadas conheci Mussa José Assis editando O Estado do Paraná que tinha na sóbria figura de João Féder o seu diretor. Era tempo em que Paulo Pimentel governava o Paraná, em um clima de liberdade que afrontava o autoritarismo em que estava mergulhado o Brasil. Nem por isso o jornal, que tinha como principal acionista o governador, deixava de ser equilibrado no espaço de informação que envolvia a oposição expressada no MDB.

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Praticava o conceito jeffersoniano da liberdade de imprensa que tinha no bravo Mussa seu tutor. Era um tempo terrível e só quem o viveu pode jamais esquecer. O próprio Paulo Pimentel, que fazia um governo moderno e empreendedor, no segundo semestre de 1968, chegou a freqüentar supostas listas de cassação, fruto da intolerância autoritária aliada a alguns energúmenos ?dedos-duros? do Paraná. De uma única ação o que queriam era derrubar um governo democrático e calar a liberdade de imprensa expressada pelo jornal O Estado do Paraná.

Em 1971, quando o chamado comando revolucionário nomeou Haroldo Leon Peres para bionicamente governar o Estado, inaugurou-se um tempo de intolerância jamais visto pela sociedade paranaense. A resistência libertária teve em O Estado do Paraná a sua trincheira fundamental, despindo o verdugo com tamanha competência que forneceu o combustível para o seu afastamento. Exatamente sete meses depois de assumir o governo, era afastado por corrupção, flagrado em um hotel do Leme, no Rio de Janeiro. No seu curto reinado a liberdade de imprensa foi violada e violentada. Com invasões em que a principal vítima era o jornal que tinha Mussa como seu editor.

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Relembro que em 1981, época em que exercia mandato de deputado federal, fui procurado por Haroldo Leon Peres, desejando se filiar ao PMDB para disputar as eleições à Câmara Federal no ano seguinte. Exerci a integralidade do meu mandato e vetei a sua filiação tendo, dentro outros companheiros, o apoio de Waldyr Pugliesi, que então presidia o partido no Estado. São lembranças que ao assistir o ato de outorga daquela cidadania vinham à memória com enorme nitidez.

A vida de um jornalista é como a de um toureiro. O touro pode derrubá-lo a qualquer momento, se for incompetente ou ingênuo. Na tourada da vida temos de enfrentar muitos touros. Os mais temíveis são os ?miúras?. No jornalismo não é diferente, é uma tourada lutada todos os dias. Somente os competentes sobrevivem com ética e decência, buscando a verdade como essência e fundamento inegociável. O notável poeta gaúcho Mário Quintana proclamava que a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer. Daí o grande desafio da profissão, onde as subjetividades não podem freqüentar o cotidiano dos homens de imprensa dotados do perfil de integridade de um Mussa José Assis. A ética weberiana da responsabilidade profissional de bem informar os seus leitores é a razão de ser.

Por tudo isso, a Assembléia Legislativa do Paraná promoveu uma sessão histórica e de importância transcendente em nome do povo paranaense ao conceder aquela honraria. Tanto quanto o homenageado, a própria casa legislativa homenageou-se, ao adentrar a história de vida de um dos mais importantes jornalistas paranaenses da contemporaneidade.

Hélio Duque, ex-deputado federal.