Ivan Schmidt
Uma das marcas mais indesejáveis de nossa herança ibérica, dizem os especialistas, é a vocação para o jeitinho, a arrumação, o olho gordo da inveja, o melting point que fecundou a inevitável locusta chamada corrupção, uma via de dois sentidos, porquanto é impossível admitir a existência de corrupto sem a contrapartida, sem dúvida mais abjeta, do corruptor.
A assertiva que nos enche de asco ganhou vistosa moldura nos últimos dias com a descoberta pela Polícia Federal de mais um lance da novela da corrupção tupiniquim, desnudando um abominável conluio entre contraventores do jogo do bicho e exploração de caça-níqueis no Rio de Janeiro, o que pode ser uma fachada para crimes mais pérfidos como o tráfico de drogas e, por certo, a lavagem de dinheiro, com magistrados, delegados federais e advogados.
A PF prendeu 25 pessoas e apreendeu dinheiro vivo e carros importados, além de toneladas de documentos, que deverão lastrear aquela que deverá ser uma das mais alentadas investigações sobre a ação do crime organizado em seu entrelaçamento estratégico com elementos postados no interior da estrutura judiciária e policial. A partir de agora, mesmo diante da difícil tarefa de separar o joio do trigo, que segurança jurídica terá o cidadão ao saber que desembargadores e juízes colocaram-se a serviço do crime, vendendo sentenças e pareceres destinados a dar amparo legal a bandidos de alto coturno?
Diante de tamanha falta de pudor, é fichinha recordar a ação do ex-deputado João Alves, chefe dos ?anões do Orçamento?, que entre 1989 e 1992 valeu-se da condição de relator-geral da Comissão Mista do Orçamento para surrupiar cerca de US$ 30,5 milhões, por meio de emendas fictícias destinadas a construção de estradas, pontes, escolas, hospitais ou garantir recursos para obras assistenciais, cuja verificação posterior não comprovou a existência real de nenhum dos objetos das emendas, vez que sua remota localização obrigava o abelhudo a realizar incertas buscas no lado oculto da Lua.
Mais recente, mas igualmente nojenta, foi a aparição diuturna nos canais midiáticos dos mensaleiros e sanguessugas. Os primeiros emporcalhados por um dinheiro sabidamente drenado de estatais federais para as contas do publicitário Marcos Valério de Souza, de onde escorria para os bolsos de integrantes da base aliada do governo na Câmara dos Deputados. E os sanguessugas, clones dos anões do Orçamento, abocanhando como piranhas ensandecidas a espórtula apurada nas compras superfaturadas de ambulâncias para prefeituras, aí também com a utilização do surrado expediente de viciar emendas ao Orçamento da União.
Essas broncas começam a ser remexidas agora pelo Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte da Justiça no País, de quem a sociedade espera ação enérgica e exemplar na punição dos crimes e dos criminosos, sem exceção! Desde já o Supremo é alçado à condição de comitê de salvação pública, porquanto não há mais nenhuma instância disponível para dar ouvidos aos reclamos atônitos da cidadania.
Em teoria (e também na prática) sabe-se que corrupção e desenvolvimento econômico são temas candentes no Brasil. Conforme asseverou Sérgio Praça no magazine Getúlio, editado pela prestigiosa Fundação Getúlio Vargas (FGV), entre nós ?o senso comum admite, sem muita necessidade de comprovação empírica, que a primeira abunda e o segundo é escasso?. E de tão enraizada que está a corrupção no tecido social, não poucos são os estudiosos a defender que a mesma se associa de forma visível às fases mais intensas de modernização, aceitando a tese que o fenômeno não deve ser tratado unicamente com o viés moralista.
Na verdade, não há motivo para desespero. O famoso Índice de Percepções de Corrupção da Transparência Internacional, o indicador de maior credibilidade no mundo, entrevistou investidores de 163 países em 2006, aparecendo o Brasil como o 70.º menos corrupto da relação. Prestemos atenção, no entanto, para o raciocínio lógico de Cláudio Werner Abramo, diretor-executivo da Transparência Brasil: ?Esse tipo de ranking não dá nenhuma idéia a respeito da integridade das instituições dos países e, muito menos, de sua evolução ao longo do tempo?.
Ivan Schmidt é jornalista.