O jogo do poder

No quarto ano do governo João Figueiredo, a mais importante visita de um chefe de Estado estrangeiro foi a do presidente dos EUA, Ronald Reagan. O Brasil vivia o antepenúltimo ano de vigência do estado autoritário. As eleições diretas para os governos estaduais já estavam definidas. Dentro da filosofia da distensão lenta, gradual e segura preconizada e desenvolvida a partir do governo Geisel. A presença em Brasília do presidente norte-americano se revestia de expectativas alimentadas por análises e comentários políticos, e as diferentes correntes de pensamento extraiam conclusões das mais diversas entonações. A oposição brasileira, marginalizada e discriminada por sucessivas cassações de mandatos executadas ao longo do ciclo autoritário, seria surpreendida com inusitado convite.

O presidente Ronald Reagan desejava um encontro com políticos brasileiros de oposição. Coube à sua embaixada no Brasil e ao Departamento de Estado formular os convites com total autonomia ante o governo brasileiro. Foram, por seus próprios critérios, convidados sete integrantes da oposição parlamentar brasileira. O encontro seria no Palácio Alvorada, onde Reagan se hospedava com a sua comitiva e se realizaria no salão da biblioteca. Convite do mesmo teor foi feito aos integrantes da base política situacionista. A época ruidosos protestos se multiplicaram pelo País, entendendo que a oposição deveria recusar o encontro.

Os sete membros da oposição convidados por Reagan foram os senadores Franco Montoro, Tancredo Neves, Paulo Brossard e Saturnino Braga e os deputados federais Ulisses Guimarães, Odacir Klein e este escriba. Recordo que, convocado por Tancredo Neves, fui no seu carro e ao chegar aos portões, disse-me que se passaram 18 anos desde a sua última visita ao Alvorada.

A reunião marcada por formalismo protocolar, circunscrita ao ?staff? do governo norte-americano, teve grande importância na luta redemocratizadora. Não tanto pelo que foi discutido, mas pela simbologia e demonstração de que a oposição brasileira não era constituída por subversivos e irresponsáveis como pregava o autoritarismo nativo. O desconforto do governo João Figueiredo com aquele encontro era expressado nas colunas dos ?escribas de aluguel? serviçais de todos os governos.

Anos depois, teria um segundo encontro na Casa Branca, ao lado do saudoso Fernando Gasparian, Pimenta da Veiga, Saulo Queiroz e do hoje senador Heráclito Fortes, com o presidente Ronald Reagan. Todos convidados pelo seu governo para extenso programa oficial de visitas às suas instituições políticas e econômicas.

Foi nessa ocasião que conheci em tempo real o peso da geopolítica nas relações internacionais. O grupo de brasileiros foi convidado para almoçar em anexo da Casa Branca com o subsecretário de Estado para a América Latina, o advogado Elliott Abrams. Em seguida todos se dirigiram ao gabinete e sala de reuniões para o que seria uma troca de pontos de vista com o subsecretário Abrams (ainda hoje personagem de destaque no governo George Bush) e o seu grupo de assessores. Ao entrar no gabinete, observei adornando a parede um quadro com a fotografia do guerrilheiro angolano Jonas Savimbi, comandante da força militar Unita, que controlava a região de Jamba (riquíssima em diamantes), no sul de Angola, e intensificava a guerra civil que durou 25 anos. Era surrealismo puro: Jonas Savimbi, presidente da República de Angola.

Dirigi-me a Elliott Abrams e disse-lhe que o Brasil tinha profundas relações com Angola e o seu governo era outro. O grupo parlamentar Brasil-Angola, no Congresso Nacional, tinha-me como seu presidente, conhecia bem a sua realidade e o presidente da República era o engenheiro de petróleo José Eduardo dos Santos, constitucionalmente, com quem havia me reunido há poucas semanas em Luanda.

Foi o bastante para, com arrogância, o subsecretário de Estado fitar-me e dizer: ?Para os EUA, o presidente de Angola é Jonas Savimbi?. Perplexo, redargui: ?O seu país não tem o direito de falsificar realidades, enganando o seu povo?.

A reunião acabou nesse exato momento.

Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.

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