A tragédia de ontem não foi a primeira, não será a última. Mas é uma tragédia, com suas características e suspeitas (por enquanto, nada mais que suspeitas). O desaparecimento do Airbus A330-200 da Air France, que levava 228 pessoas – entre passageiros e tripulantes – para Paris, entra para a história como mais uma das fatalidades do transporte aéreo. Justamente o mais seguro dos meios de transporte é o mais afetado pelo imponderável assustador.

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Numa brincadeira repetida à exaustão, Tom Jobim (hoje nome de aeroporto, de onde saiu o Airbus na noite de domingo) dizia que o problema do avião é que “ele voa lá em cima, e a oficina é aqui embaixo”. O risco de falha técnica em uma aeronave é tão pequeno quanto o risco de acidentes, até pela forma como as empresas constroem hoje um avião – tudo seguindo normas muito rígidas, além de terem dentro da estrutura “planos B” que são ativados automaticamente, e têm acionamentos diferentes dos mecanismos principais.

Daí a extrema segurança para viajar, que não diminui mesmo com fatos inacreditáveis como este com o Airbus. O avião seguirá sendo o meio de transporte mais seguro, ainda mais em comparação com carros, caminhões e motocicletas. Milhões e milhões de pessoas vão continuar viajando rotas continentais, como a Rio-Paris que acabou entrando nas manchetes do pior jeito possível.

Só que ninguém pode desrespeitar o temor que toma conta de todos, principalmente dos que vão cruzar o oceano nesta semana, logo após o desaparecimento do voo 447. É uma situação natural, pois acerta em cheio a nossa confiança. Somos capazes de muita coisa, mas são poucos os que conseguem controlar um avião; e ninguém consegue prever ou salvar acontecimentos como os de ontem. Daí a preocupação que não cessará tão cedo.

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Mas, acima de tudo, não se pode esquecer que houve uma fatalidade. O desaparecimento é tão improvável (até pelo fato, inconcebível, de um avião simplesmente “sumir”) que ninguém ainda conseguiu elencar hipóteses plausíveis sobre o que aconteceu – no primeiro fato anormal em um voo intercontinental entre a América do Sul e a Europa.

(Fazendo uma rápida explicação, o acidente de 1972, no aeroporto de Orly, com um avião da Varig, foi no momento da aterrissagem, e não em velocidade de cruzeiro.)

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Surgiram, durante o dia, teses das mais banais, como um problema elétrico, até os mais incríveis, como o de uma tempestade de raios que alvejou a aeronave. Não se pode alegar maluquice em qualquer análise, pois não há qualquer vestígio do Airbus e, por enquanto, trabalha-se em cima de especulações. Não podemos cravar que houve uma explosão, que o avião caiu, ou que a aeronave se desintegrou no ar, possibilidade aventada por especialistas. A rigor, não há nada. Só o desaparecimento, no meio do Oceano Atlântico, de um Airbus A330.

Neste momento, até os pesquisadores ficam de mãos atadas, buscam uma explicação da mesma forma que nós, leigos, estamos buscando. De concreto, sabe-se de uma turbulência, de uma pane elétrica e da despressurização. O mais será conhecido quando a caixa-preta aparecer. Isto se aparecer – em 1978, um voo de Tóquio para São Paulo desapareceu, tal como esse Airbus da Air France. Nunca foi encontrado. Nada foi explicado.

O que também há de concreto é o sofrimento das famílias, que além de saberem da tragédia, ainda têm que passar pela terrível indefinição (mas o que aconteceu? Por que não se fala a verdade? Onde está meu ente querido? Por que ninguém fala nada?). E de passarem pela ingrata experiência de virarem protagonistas involuntários de mais uma intervenção do imponderável em nossas vidas.