O horror e suas metáforas

Um dos textos mais inquietantes que li nos últimos dias saiu na primeira edição do Le Monde Diplomatique Brasil, datada de agosto, e discorre sobre o uso de medicamentos como armas de guerra, síntese proposta já no título da matéria assinada por Steve Wright, professor da School of Applied Global Ethics, da Leeds Metropolitan University, na Inglaterra.

Wright se baseia no relatório distribuído pela Associação Médica Britânica (AMB), alertando para a militarização da medicina e seu potencial para a criação de novos artefatos de guerra, ensejando até mesmo a cunhagem da expressão ?farmacologia tática?, que faz o leitor mergulhar num enredo de ficção científica – foi o meu caso -, que na matéria não vou além dos insuperáveis quadrinhos de Flash Gordon e do premonitório 1984, de George Orwell.

Experiências autorizadas por governos com drogas alucinógenas incapacitantes, como o LSD, em seres humanos, foram feitas em campos de batalha durante a Guerra do Vietnã, bem como na pesquisa russa conhecida pelo codinome ?Bonfire?, destinada a empregar material químico em interrogatórios, sobretudo, elementos paralisantes que interrompem a transmissão de impulsos nervosos, produzem dor ou irritação extrema, baseados em componentes encontrados na urtiga ou nos sapos comuns.

Nem nas aventuras de Tintin a imaginação chegou a níveis tão desconcertantes quanto os alertados pela AMB, que também lamentou o espaço restrito do debate aos grupos envolvidos na concepção de armas não convencionais, como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o Fórum de Genebra, o Programa Harvard-Sussex e o Pugwash. Essa referência nos remete à cidade canadense homônima, onde em 1955 Bertrand Russel e Joseph Rotblat criaram uma conferência permanente para trabalhar contra as ameaças de conflitos mundiais.

Ao passo que a medicina e a indústria farmacêutica devem receber todo o apoio imaginável, admoestou Wright, em face do abrangente potencial para curar doenças humanas e prolongar vidas, por igual devem ser observadas com insondável espanto, ao se considerar que a ?revolução das neurociências também traz o espectro da iminente militarização da biologia, acompanhada pelo circo de horrores de novos mecanismos para induzir paralisia, de técnicas avançadas de repressão, de tortura em massa, dor e terror?.

O autor acrescentou que, no Iraque, as forças aliadas dos Estados Unidos utilizaram drogas farmacológicas para acentuar o estado de alerta de seus soldados, intuindo que em futuro próximo ?poderemos presenciar tropas indo para a ação com sua agressividade e resistência ao medo, à dor e ao cansaço quimicamente aumentadas?.

?Depois do 11 de setembro emudeceram as inquirições e críticas aos avanços indesejáveis das tecnologias de segurança de Estado nos EUA?, escreveu ao comentar o novíssimo paradigma que orienta as elucubrações nessa área delicada para as potências dominadas pela visão hegemônica. Assim, não cabe estranheza ao se constatar que ?há muito menos pressão política sobre a responsabilidade democrática informada do complexo de segurança industrial. E, em muitos sentidos, esse complexo está agora criando a agenda política?. Além dos Estados Unidos e da Europa, a AMB inclui no protocolo nefasto as pesquisas similares conduzidas na China.

O estudo da AMB adiciona que o uso militar de drogas levanta questões éticas cruciais, lembrou Wright, frisando que elas não são utilizáveis ?sem gerar uma significativa mortalidade entre a população alvo?. A conclusão fere os sentimentos de humanidade: ?A droga que simplesmente tiraria as pessoas momentaneamente de ação, sem risco de morte, não existe e é improvável que venha a existir em um futuro visível?.

Não se ignora a existência de milhares de drogas descartadas ou guardadas em prateleiras sem pesquisa concluída por causa de efeitos colaterais indesejados, informou o autor. Estão também identificados vários ?produtos farmacêuticos órfãos?, com ?nove tipos diferentes de sistemas do tipo neurotransmissor/receptor e outras classes de compostos, inclusive convulsivantes?. O embrutecimento moral do coronel Kurtz não é só uma metáfora.

Ivan Schmidt é jornalista.

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