Napoleão, o Bonaparte, após ser rechaçado e derrotado na invasão à Rússia dos czares, proclamou nas estepes geladas que nada grita mais alto do que o silêncio. Adaptando o conceito napoleônico ao Brasil de 2006, diríamos que o silêncio da sociedade brasileira é ensurdecedor. A explosão desse grito silencioso poderá ocorrer nas eleições gerais de outubro. Os atuais detentores de mandato e os futuros candidatos deveriam prestar atenção redobrada ao silêncio, com eco de indignação, que vem penetrando forte no cotidiano dos brasileiros. Devem desconfiar do que pode estar vindo por aí. A surpresa poderá ser fatal para muitos.
A história registra fartamente que a sabedoria popular, mesmo quando parece tudo perdido, encontra sempre uma saída criativa. Há 32 anos, em 1974, o grito silencioso da sociedade ocorreu no Brasil. Vivendo o apogeu do Estado e do regime autoritário, nas eleições gerais daquele ano, os brasileiros nas disputas para o legislativo, estadual e federal, para surpresa geral massacraram a máquina política oficial representada pela Arena. Vivendo artificial bipartidarismo, as oposições tinham um frágil MDB como núcleo de resistência democrática.
Recém-entronizado na Presidência da República, o general Ernesto Geisel escolhera bionicamente todos os governadores de estado. Era uma máquina oficial formidável e com musculatura atlética que se estendia por todo o território nacional. Até no futebol alastrava os seus tentáculos. Onde o oficialismo não tinha bom desempenho eleitoral a solução era colocar o time no campeonato nacional. Eram poucos os municípios e regiões onde a oposição vinha derrotando os candidatos governistas nas disputas municipais. Com sabedoria o povo criou o slogan ?onde a Arena vai mal, um time no nacional?.
A disputa seria desigual. O MDB tinha enorme dificuldade até para preencher a sua chapa de candidatos. Em disputa uma vaga para o Senado e a totalidade das cadeiras para a Câmara Federal e Assembléias Legislativas. A certeza do massacre oficial era tamanha que poucos se arriscavam à candidatura pelo partido da oposição. Com enorme dificuldade, nos 22 Estados existentes então, conseguiu-se que 22 corajosos candidatos disputassem o Senado, a quase totalidade acreditando na certeza da derrota. O mesmo ocorria nas candidaturas para a Câmara dos Deputados e assembléias legislativas. À exceção do Rio Grande do Sul e do Estado da Guanabara, o MDB não conseguiu o número legal de candidatos para o preenchimento da lista oficial.
A surpresa estava por vir. O grito do silêncio popular iria explodir em todos os quadrantes do território nacional. O MDB elegeria 16 senadores e mais do que dobraria as suas bancadas na Câmara e nas assembléias legislativas. O governo atônito e nocauteado absorveu a extravagante derrota. Seria o começo do fim do regime autoritário.
No Paraná o furacão de rebeldia foi devastador. Elegeria o advogado Leite Chaves, de Londrina, para o Senado, derrotando por meio milhão de votos o candidato da máquina oficial. Na Câmara, do total de 30 cadeiras, a Arena ficaria com 15. E o MDB com as outras 15. Há de se destacar que enquanto a lista dos postulantes oficiais preenchia o seu número máximo, a oposição tivera apenas 17 nomes registrados como candidatos. Na Assembléia Legislativa, a Arena ficaria com 29 e o MDB com 25 cadeiras, na totalidade de 54.
O grito da maioria silenciosa em 1974 foi histórico. Começou a mudar o Brasil. E em 2006? Pode se repetir? Para evitar surpresas deveriam, os políticos, se mirar no escritor português Eça de Queiroz e nessa sua advertência no jornal As Farpas de 1871: ?O País perdeu a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita?.
Passados 135 anos, a genialidade eciana parecia antever o tempo brasileiro do presente.
Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.