O fingimento na política

De onde vem esse ar de esculhambação geral que se observa na paisagem brasileira, especialmente na arena política? Parte se origina nos traços culturais do caráter nacional, que junta parcela de dispersão à afoiteza e fortes doses de intuição a um fingimento que, na política, é muito comum quando um político cumprimenta uma pessoa dando tapinhas nas costas, enquanto pisca matreiramente para outra. A postura é a de alguém que quer abraçar o mundo, tirar partido de tudo e de todos, ou, ainda, acender uma vela a Deus e outra ao diabo.

Em termos de fingimento, é exemplar a historinha envolvendo Magalhães Pinto (UDN) e Tancredo Neves (PSD), também contada com outros dois personagens da raposice mineira, Benedito Valadares e José Maria Alkmin. Ao se encontrarem numa estrada, em Minas, Magalhães quis saber de Tancredo se ia para Lafaiete ou Barbacena. ?Vou para Barbacena.? ?Ah, raciocinou o careca lustroso, Tancredo diz que vai para Barbacena para que eu pense que vai a Lafaiete, mas ele vai mesmo é para Barbacena.? Há outra historinha, desta feita com José Maria Alkmin (1901-74). Encontrando-se com um eleitor, abraça-o efusivamente e diz: ?Não deixe de dar lembranças a seu pai?. O rapaz se assusta: ?Mas meu pai morreu, doutor?. ?Morreu pra você, filho ingrato! Ele continua muito vivo no meu coração?, retruca o sagaz político, que foi secretário estadual, deputado e ministro da Fazenda de JK, além de vice-presidente da República de Castel-lo Branco. Essa tática de despistamento, conhecida como engano de segundo grau, expressa um jogo de soma zero, que envolve a sagacidade de um e a malandragem de outro. O que eles querem dizer é isso: ?Quando você pensa que está indo, eu já estou voltando?.

A esperteza não se restringe aos atores políticos. Faz parte do cotidiano dos brasileiros, principalmente daqueles de baixo poder aquisitivo que habitam os fundões do País. De certa forma, trata-se de remanescentes da cultura do apadrinhamento, ainda bem acentuada nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, além de redutos periféricos das metrópoles acostumados às práticas clientelistas. ?Quem tem padrinho, não morre pagão? é a voz corrente nas regiões dependentes da velha política. ?Para os amigos, pão, para os inimigos, pau? tende a pensar certa linhagem de caciques regionais.

Os comportamentos políticos, tanto de representantes quanto de representados, fazem parte da cultura de infração de normas, cuja origem está nos primeiros passos da colonização brasileira. A inversão de valores, a lei do patrão como norma absoluta, a dispersão das comunidades ao longo do litoral e a conquista de vastos espaços do interior acentuaram, ao longo de nossa história, a predominância da cultura personalista. A ordem pessoal tornou-se mais importante que a ordem coletiva. É fato que ainda hoje esse traço se mantém presente na ordem institucional. Trata-se, de certa forma, da expressão de uma estrutura social fragmentada, dispersa, pulverizada em núcleos patriarcais que se espalham por muitos cantos.

Hoje, o reflexo desses traços aparece na fulanização política. Os partidos brasileiros têm menos importância que seus líderes. Tornaram-se emasculados, fundiram suas identidades, com a perda de substância doutrinária. A social-democracia passou a ser um espaçoso buraco no centro da galáxia política para abrigar não apenas tradicionais participantes, mas liberais de designações e conotações variadas, ex-socialistas revolucionários e comunistas históricos, que, ante a derrocada da utopia marxista, tiveram de se recolher em espaços mais aconchegantes e aceitáveis pela sociedade.

A clonagem na cultura política chega ao seu mais adiantado grau de sofisticação. Até o PT desce da cavalgadura ética em que esteve montado para assumir a condição de partido assemelhado a outras entidades partidárias. Nenhum partido pode assumir perfil de vestal.

Qual a postura do cidadão ante esse quadro? É a de distanciamento e observação. Ele não tem motivos para querer melhorar. Diariamente, a mídia coloca para sua análise o cardápio com os pratos repetidos da violência indiscriminada e o poder paralelo dos grupos organizados e armados; as negociações políticas envolvendo as alianças interpartidárias, temperadas com os caldos fisiológicos regionais; a corrupção em todas as esferas públicas; a inação do Poder Judiciário, ante o clamor da população por uma Justiça cada vez mais lenta; a fulanização política ocupando espaços partidários, em frontal infração à legislação, aumentando a sensação do estado de anomia em que vive o País.

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.

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