Ivan Schmidt

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Há quadros excelentes, é inegável, no governo de Roberto Requião. São tripulantes cativos da lancha que pronto iniciou a terceira perna duma viagem de circunavegação ao mundo da utopia, interrompida durante os mandatos de Lerner, quando se aproveitou parte do tempo para escovar a craca acumulada no casco da embarcação, ao longo do período em que esteve alijada do poder. O périplo já completou a primeira etapa de quatro anos e, agora, a nau que todos esperam não ser abrigo de insensatos, embica na direção de novo quadriênio de quimeras mil.

Como se dizia, o governo tem espaço para pensadores, estrategistas e executores de tarefas de primeira linha, gente que faz a fila andar pela eficiência e dedicação à causa pública, abstraída a cada vez menos espontânea simpatia pelo estilo pessoal do governador ou a posse de carteirinha do PMDB, a rigor, credenciais não mais requeridas para obter um lugar na máquina governamental.

Muitos dentre os quadros qualificados do governo não escondem a admiração beatífica que têm pela persona de Requião, mesmerizando a oportunidade de formar num governo que se proclama de esquerda, como se vivesse uma imersão real na reconstrução socialista segundo os moldes pouco recomendáveis de Cuba, Nicarágua e, mais recentemente, Venezuela, Bolívia e Equador.

Outros, nem tanto, que ali coexistem movidos tão-só pelo interesse na pecúnia, ou até que se prove o contrário, como meros figurantes engaiolados na falta de bagagem ideológica e acuidade para dissecar a sintaxe antineoliberal do chefe, para a maioria, uma incontrolável torrente de signos e idéias estranhos, mesmo porque fizeram sua profissão de fé no credo da burguesia enfatuada que o governador tanto ridiculariza. Tais servidores bem podem ser comparados aos ?bovinos eruditos?, camarilha que incensava o tirano Oliveira Salazar, aplaudindo com o fervor das sacristias a massa folhada sem recheio de seus discursos veementes, conforme o romancista luso Antonio Lobo Antunes, autor das descrições mais cáusticas sobre o obscurantismo do Capado, como se casquinava nas vielas da Lisboa pombalina. O pior é que o déspota não esclarecido semeou clones em várias latitudes.

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O raciocínio subseqüente, apesar da carga de maledicência que alguns venham a vislumbrar, embora a perspectiva careça de fundamentos tangíveis como as aventuras visionárias do triste cavaleiro da Mancha, poderá ser comprovado nos closes exibidos durante a transmissão da catadupa de elogios em boca própria da escola de governo. O desfile de caras e bocas, atônitas e aparvalhadas, não sendo marotice do responsável pelo corte das imagens, é quase um relato clínico do vácuo existente no interior da caixa craniana de não poucos condestáveis da novel academia.

No frigir dos ovos, permanece a questão de difícil enunciado que é compreender a presença no governo de alguns pró-homens dignos da maior consideração, que teriam melhor percurso se ficassem fora dele. Afinal, a partilha dos cargos importantes deu-se sob a égide do imponderável amálgama da água e do azeite, caricata fusão de interesses que anexou ao PMDB lascas do PT, PSDB e PFL. Do PT veio a patota que mais bateu em Requião no mandato anterior, ao passo que tucanos e pefelistas não conseguiram ir além da representação individualista dos deputados Nelson Garcia, secretário do Trabalho, e Nelson Justus, presidente da Assembléia Legislativa.

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Os líderes dos partidos a que estão filiados os parlamentares anunciam a intenção de encaminhar, revogadas as disposições em contrário, o atestado liberatório dos que preferiram remar noutra canoa. Garcia ganhou lugar na galera em recompensa ao gigantesco esforço realizado por Hermas Brandão, cujo fruto foi a conquista de partícula infinitesimal do tucanato. Os zombadores juram que foram os dez mil votos que livraram a cara de Requião, ao que os petistas de resultado batem o pé, estropiados sob a cangalha do despeito.

Quanto ao deputado Justus, pós-graduado na meticulosa arte de fazer amigos e influenciar pessoas nos desvãos da política, levou a presidência da Assembléia pelo desassombro de atropelar a ordem natural e apoiar Requião, obrigando o PFL a tragar tamanho destampatório. Josef Nório Sculhoff compulsou Freud, mas não entendeu bulhufas.

Ivan Schmidt é jornalista.