Carlos Alberto dos Reis

continua após a publicidade

As estimativas do governo brasileiro de alcançar este ano um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 4% em relação a 2004 parecem cada vez mais distantes. Variáveis como a queda prevista de quase 2% no PIB agrícola robustece os argumentos de estimativas mais conservadoras, que acenam com, no máximo, um crescimento global do PIB de 3,5% este ano.

Seja qual for o número, é muito pouco diante de outras economias. A China, por exemplo, vem de divulgar seu crescimento no segundo trimestre deste ano: 11,3% do PIB em relação a igual período do ano anterior. A taxa surpreendeu, mas não deveria – afinal, nos últimos 25 anos, o PIB da China cresce a uma média de 9% ao ano! Outro país que entrou no milênio com a corda toda foi a Índia, cujas taxas médias de crescimento anual do PIB estão na casa dos 7% ao ano.

China e Índia são países emergentes sempre comparados ao Brasil quando se quer argumentar pelo potencial econômico que tem nosso País. De fato, há semelhanças em alguns aspectos: potencial de mercado interno, vocação agrícola e industrial, etc. Mas há, também, diferenças fundamentais entre os três países que, se não explicam a tibiez da economia brasileira diante da exuberância do desenvolvimento dos outros dois, no mínimo indicam que o Brasil está atrasado nesta corrida porque mantém uma série de gargalos que impedem uma performance mais substancial. São fatores tão diversos e extensos que não caberiam neste artigo. Como exemplo, porém, vale a pena mencionar o gargalo de energia elétrica. Afinal, este tipo de energia é fundamental para assegurar o desenvolvimento sustentado da economia.

Pois bem, todos se lembram do apagão de 2001. Hoje, há muitas vozes mais otimistas garantindo que o perigo de ocorrer outro erro estratégico daquela monta está praticamente afastado. Mas o fato é que, se quisermos acertar os passos com países como a China e a Índia, não vamos escapar de encontrar uma solução para o problema que é acumular os investimentos necessários para que tenhamos energia necessária para fazer frente a um eventual salto da economia brasileira.

continua após a publicidade

Outro aspecto deste gargalo, que poderíamos chamar de fator energético, refere-se a disponibilizar aos agentes do mercado – agronegócio, indústrias, serviços, etc. – tarifas de energia compatíveis com os índices de produtividade, que são uma exigência para o desenvolvimento econômico contemporâneo.

E é aqui que as surpresas começam. Segundo um estudo realizado pela Agência Internacional de Energia (AIE), o preço pago pela energia elétrica no Brasil é o décimo maior do mundo. Trata-se de um custo comparável ao que pagam consumidores de países como Reino Unido e Espanha. E mais cara do que a de países como Estados Unidos, México, Hungria, República Tcheca. O espanto com esses dados é maior ainda quando se sabe que quase 84% da energia utilizada no Brasil vêm de hidrelétricas. Ora, México e Estados Unidos, por exemplo, são países cuja maior oferta de energia vem de termoelétricas, sabidamente uma energia gerada com custos muito mais elevados do que os de hidrelétricas.

continua após a publicidade

As razões para essas disparidades são variadas. Mas pelo menos uma merece reflexão mais profunda, se realmente estivermos falando a sério sobre a necessidade do País de entrar em um ciclo de desenvolvimento sustentado: um dos fatores que encarece o custo da energia no Brasil é exatamente a alta carga tributária que incide sobre o insumo. De acordo com cálculos conservadores, pelo menos 20% da tarifa de energia elétrica disponível no País é imposto embutido. Pior é o que os economistas chamam de ?cálculo por dentro?, praticado sem nenhuma cerimônia quando se fala em custo de energia. O ICMS é cobrado neste custo e cobrado novamente no valor que chega ao consumidor. Imposto em cima de imposto.

Fica claro, portanto, que só com reestruturação da carga tributária, essencial e urgente, conseguiremos ser competitivos e tentar concorrer, minimamente, com a exuberância econômica que estão exibindo países como a China e a Índia.

Carlos Alberto dos Reis é presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo.