O exemplo de cima

Um clima de insegurança e desrespeito à ordem pública que tem sua raiz na falta de referências éticas e morais, e na ausência de um projeto de nação, se instalou no Brasil de hoje, e faz com que o interesse individual ou de determinados grupos se sobreponha ao interesse coletivo. Nesse contexto se inserem desde a recente onda de invasões promovida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra; a destruição de um milhão de mudas de eucalipto na fazenda da Aracruz Celulose, no Rio Grande do Sul, pelo grupo auto-intitulado Via Campesina; a crise do mensalão; a violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, que resultou na queda do ministro da Fazenda.

Mais do que atos isolados, esses episódios são o sintoma de um quadro de desagregação que tem como pano de fundo a desmoralização das autoridades. Ao não cumprirem a lei, elas acabam criando um ambiente de estímulo à impunidade. Fatos como os citados acima são o testemunho cabal da falência de um governo e de um modelo de organização política, onde os fins justificam os meios, mesmo que para isso seja preciso pisotear a lei e os direitos daqueles que trabalham honestamente. E têm se repetido cotidianamente, produzindo entre os brasileiros um sentimento de decepção e desânimo, que cria uma cultura de falta de perspectivas e desesperança.

Em uma família, se o pai não dá exemplo, dificilmente o filho vai agir de forma responsável para com o próximo. Se o governo, a Justiça, os líderes políticos, agem como se fossem intocáveis mesmo quando desrespeitam a lei que juraram cumprir, a comunidade fica desprotegida, à mercê de grupos que se aproveitam do sentimento geral de impunidade para fazerem valer sua vontade. Se o governo é capaz de violentar o direito de uma pessoa que apenas cumpriu a sua obrigação de relatar a verdade, como no episódio da quebra do sigilo do caseiro Francenildo, dificilmente terá autoridade moral para exigir a obediência dos demais cidadãos à lei.

Quando o presidente da República diz que seu partido – ao utilizar recursos ilegais de caixa dois para custear campanhas eleitorais ou comprar aliados – fez o que todo mundo faz, o exemplo que vem de cima é o da impunidade. Enquanto isso, o mesmo governo penaliza e persegue o pequeno comerciante que eventualmente é obrigado a atrasar o pagamento de determinados impostos, sob pena de inviabilizar seu negócio ou demitir seus funcionários. Ou o agricultor que por conta de uma seca, dos baixos preços de venda de sua produção, da falta de apoio e dos altos juros, não consegue pagar suas dívidas junto aos bancos, e acaba perdendo sua propriedade e meio de subsistência.

Essa situação se reflete em todas as esferas de convivência da sociedade, criando um círculo vicioso. Quando o servidor público faz uma greve abusiva e deixa de atender a população para obter um reajuste salarial que pode até ser justo, mas é economicamente inviável, quem paga é o cidadão, que depois terá que arcar com o aumento da tarifa do serviço que ele precisa utilizar. Quando o eleitor troca seu voto por um benefício material imediato, ele está dando a oportunidade para que o político corrupto se eleja, e possa aproveitar de sua posição para obter vantagens pessoais.

Por isso, é fundamental ter consciência de que a responsabilidade de mudar esse quadro é de todos. Começando pela proteção e valorização do papel da família como unidade essencial para o desenvolvimento da sociedade humana. Pois é na família que se inicia a educação para a vida em sociedade. E é a partir dela que podemos alterar maus hábitos e arraigar bons princípios, que depois se refletirão na vida da comunidade.

A partir do fortalecimento dos valores familiares, poderemos construir um projeto de nação que coloque o interesse público em primeiro lugar, e onde haja respeito tanto ao direito individual quanto ao coletivo. Que tenha base no pleno emprego, no incentivo à iniciativa, que premie o esforço, recupere a esperança. Que sirva à inclusão social para resgatar e abrir o caminho para que o Brasil recupere sua auto-estima e cumpra o destino de grande nação, onde a medida de todas as coisas seja a dignidade e a justiça.

Max Rosenmann é deputado federal (PMDB/PR).

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