Gaudêncio Torquato
Por que o presidente Luiz Inácio, com mais força que no primeiro mandato, teve dificuldades de encontrar um empresário de peso para assumir o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior? Por que eventuais empresários de peso sondados para ocupar o cargo – dentre os quais Jorge Gerdau, Eugênio Staub, Abílio Diniz, Horácio Lafer Piva, Maurício Botelho e Ivo Rosseti – recusaram o convite? Resposta: porque a simbologia do poder incorporou novos sinais. A política expandiu as formas de representação. A pirâmide da Fiesp, sem força para determinar rumos da indústria, hoje se parece um Tiranossauro rex sem dentes. Desmontaram-se as antigas arenas corporativas e, em seu lugar, surgiu uma miríade de pólos de articulação, que formam, por assim dizer, a nova locomotiva empresarial do País.
Sob este entendimento, compreende-se a razão pela qual sobram perfis para ocupar a Esplanada dos Ministérios e cavalheiros a menos para comandar o cantinho do Desenvolvimento. Sem muita opção, escolheu um experimentado executivo, o jornalista Miguel Jorge. Não significa dizer que a taxa cívica do empresariado se esvaiu, apenas está mais contida e centrada no pragmatismo recomendado pelo panorama institucional, onde se observam coisas absurdas, como excessiva centralização do processo decisório no Executivo, pletora de impostos e tributos, indefinição de política industrial, estreitamento de nichos de negociação na burocracia estatal, ausência de claros marcos regulatórios e insistente inobservância de princípios constitucionais. A inserção de um empresário de vulto na administração pública, sob amarras e pressões, implica seguramente renúncia a valores apreendidos e aplicados na iniciativa privada, afora os sacrifícios de ordem pessoal.
O fato é que o empresário brasileiro – foco desta análise -possui uma percepção aguda sobre a importância das esferas governativas. Os programas de privatização e de liberalização comercial, que marcaram, a partir do governo FHC, uma ordem alicerçada no mercado, diminuíram o tamanho do Estado, tornando a teia produtiva menos dependente dele. O corte com o passado abrigou um processo de desarticulação e desnacionalização de segmentos fortes, como o têxtil, bens de capital, autopeças, eletrodomésticos, produtos de higiene e limpeza, e, conseqüentemente, um realinhamento das cadeias, a partir de fusões e incorporações e forte alocação de capital internacional. A galeria de perfis nacionais se enriqueceu com parceiros estrangeiros. Novos desafios, novos atores e nova agenda passaram a ditar os rumos industriais. A imagem da poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, historicamente atrelada a figuras exponenciais (hoje presidida por pessoa habilidosa, mas sem histórico empresarial de porte), se esgarça no vácuo ocupado por múltiplas associações que lideram a defesa de cadeias produtivas. Desfeito o monopólio da grande representação empresarial, multiplicam-se os centros de debate; e os acordos coletivos, desatrelados do viés da luta de classes, se desenrolam em novos e especializados núcleos de articulação.
A extinção de comissões e conselhos, como o CIP (Conselho Interministerial de Preços) e câmaras setoriais aliviou a carga de pressão sobre o Poder Executivo e este, matreiro, passou a usar em profusão o mecanismo das medidas provisórias. Os setores produtivos, percebendo que a via do Poder Legislativo seria mais larga para abrigar as demandas, incrementaram a articulação na área congressual, decidindo participar com atores próprios da ação parlamentar. Explica-se, assim, o estiolamento de força das entidades de classe. Basta ver o crescimento da bancada de empresários, que subiu de 104 para 121 deputados na atual legislatura, sendo a maior do Congresso. O próprio presidente da CNI, Armando Monteiro, investe-se da condição de deputado. O Estado-empresário da década de 70 deixou de ser o bicho-papão, mas até hoje faz estragos. A pauta da onerosa carga tributária, dos juros altos e da excessiva burocracia freqüenta a agenda empresarial desde 1996, quando 3 mil empresários se deslocaram a Brasília para pressionar o Congresso por reformas constitucionais.
De lá para cá, a cantilena é a mesma. A produção cansou de promessas. E, aqui, aportamos no atual ministério para arrematar que prestígio já não faz a cabeça de um homem de negócios bem-sucedido, geralmente avesso ao ritmo da administração pública. O que pode um ministro do Desenvolvimento realizar para ?desenvolver? o País? Fazer um PAC bem vistoso e ser chamado de herói por ganhar pouco? Os usineiros também foram chamados de heróis. Aberta a temporada de heroísmo, resta ao novo ministro do Desenvolvimento, jornalista Miguel Jorge, escrever densos capítulos da história da indústria e do comércio, no Brasil, agora sem a arte do escriba saído das redações, mas com a habilidade do executivo que deixa um rastro de ações positivas por onde passa.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político.