O discurso do método

A edição semanal de Roda Viva, de longe o melhor programa de entrevistas da televisão brasileira (TV Cultura de São Paulo), exibido em cadeia pela Paraná Educativa às segundas-feiras no final da noite, teve a participação de Mano Brown, cantor de rap do bairro paulistano do Capão Redondo, há alguns anos tido e havido como a área urbana mais violenta do País. Trocando em miúdos, ali a vida humana valia menos que uma bagana que o vento espalha.

Numa das inúmeras respostas que deu às questões sumamente bem elaboradas pelos entrevistadores, dentre os quais dou nota máxima, com louvor, à psiquiatra Maria Rita Khel, com a secura de palavras que parece ser sua característica marcante, Mano Brown avisou que hoje as coisas estão diferentes e os tempos são outros, porque a própria comunidade resolveu agir para operar as mudanças necessárias nas atitudes (uma palavra que o cantor usou com propriedade), na vida dos moradores. ?Hoje o lugar menos violento é a favela, meo, tá ligado??, fulminou.

Chamou a atenção dos que se deram à incontida satisfação de acompanhar a entrevista de Brown o despojamento das opiniões que ele se recusou, mesmo estimulado, a definir como discurso, até porque não aceita que o façam líder de coisa alguma. Ao contrário, se proclamou igual a todos os manos que vivem em miríades de quebradas idênticas Brasil afora, mesmo desfrutando duma condição de vida melhor, com moradia digna para a mãe e o restante da família. Sobre a mulher e os filhos, Brown silencia e diz que quanto menos fala do assunto, mais o casamento vai durar. Reconheceu, entretanto, ser um pai ausente pela natureza da carreira que decidiu abraçar: ?Mas, se eu não fosse um cantor de rap, de qualquer maneira, minha escolha teria sido a música?.

Pois, caríssimos leitores, ouvir Mano Brown foi bem mais instrutivo e estimulante que aturar, por exemplo, o palavrório ambíguo e eivado de falsidades do senador Renan Calheiros ou do ministro Walfrido Mares Guia, num contexto da vida republicana em que a sordidez de certos políticos cavalga o zênite, ícones perfeitos da mistificação e da falta de compostura.

Mesmo sabendo que a perícia de experimentados agentes da Polícia Federal não se deixaria embair pelos grossos indícios de adulteração e inverdades contidas nas notas fiscais e comprovantes do transporte dos bois criados nas fazendas de Murici, cuja comercialização lhe proporcionaria recursos que fariam inveja aos especializados pecuaristas australianos, Renan preferiu entocar-se na empáfia de se declarar ?inucente?. E Walfridão, o amigo certo das horas incertas, um dos homens de ouro da campanha do tucano Eduardo Azeredo na tentativa de reeleição para o governo de Minas, em 1998, esforço não obstante incompreendido pela maioria do eleitorado, é um dos primeiros a figurar na lista do procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, não como eventual turiferário do esquema montado pelo esperto corretor de fundos Marcos Valério de Souza, para turbinar o caixa 2 da campanha.

O senador Eduardo Azeredo, apeado preventivamente da presidência nacional do PSDB logo que a denúncia pipocou na CPI da Corrupção e mergulhado no inferno astral, declarou à Folha de S. Paulo que ?Walfrido participou da campanha ao meu lado ativamente?. Sobre a arrecadação de fundos, o senador não escondeu a evidência de que o aliado ?tinha relações com pessoas que podiam apoiar a campanha?. Assim sendo, como o próprio candidato não tinha posses que garantissem ?tirar empréstimo bancário maior, o Walfrido é que tirou o empréstimo com meu aval para quitar a dívida?. Dívida paga pelo atual ministro da Articulação Institucional de Lula, que segundo Azeredo ?é meu amigo, continua sendo e tem condições de poder arcar com uma dívida dessas?. Algo em torno de R$ 500 mil, ao que se cogita. Uma peteca, diria Roberto Jefferson, perto da montanha de grana que Marcos Valério descolou dos bancos mineiros para ajudar, posteriormente, os novos companheiros do inabalável guardião da ética, o Partido dos Trabalhadores.

Por essas e outras, para os que ainda crêem na democracia em meio a tanta podridão, foi um grato exercício atentar para o tosco, mas inteligente pensar de um legítimo vitorioso egresso da classe historicamente relegada à pobreza, à incultura e – na quintessência da crueldade social – a que oferece as vítimas preferenciais do aparato carcomido pela sanha de facínoras paisanos e fardados.

Ivan Schmidt é jornalista.

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