Ivan Schmidt

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Era perfeitamente previsível o discurso de posse feito pelo governador Roberto Requião, na Assembléia Legislativa, ao assumir pela terceira vez o governo estadual e, enfim, assumir-se por inteiro como o último quadro gramsciano da política brasileira, como foi outrora classificado por um professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – meninos, ouvi – na residência do ex-senador Ronan Tito, em Belo Horizonte, poucos dias antes da desincompatibilização do primeiro mandato.

Requião se insinuava, então, em alguns diretórios regionais do PMDB defendendo o direito legítimo de sonhar com a indicação do partido a uma virtual candidatura à Presidência da República, pretensão àquela época encimada pela aura nacionalista de ter confiado a construção da Ferroeste ao Exército, ação devidamente apregoada aos quatro ventos como ?uma parceria de amor pelo Brasil?, bordão ufanístico criado pelo próprio governador, de quem os publicitários de turno copiavam palavra a palavra.

Cumprido o segundo período no Palácio Iguaçu, o governador reeleito se proclama um homem de esquerda, deixando atônita a platéia e a sociedade que não foi consultada e sequer se fez representar de forma compatível no evento da posse, ao afirmar que o governo também será de esquerda e, pasmem todos, radical! Contudo, esse ímpeto serôdio de autodefinição ideológica haveria de surpreender apenas os desatentos observadores do nosso cenário político. A chave é que Requião sempre se cercou, embora jamais oferecesse um figo podre a qualquer dos indefectíveis catecúmenos atraídos pelos chavões da revolução social e humanística, por guardar no fundo da alma a certeza de que a maioria o faz por puro oportunismo.

Os demais quadros chegados ao círculo do poder, nunca é demais repetir, serão estimulados a buscar inspiração nos legendários ?heróis? da esquerda internacional, entre eles, com certeza, gente da estirpe de Stalin, Kamenev, Beria ou Enver Hodxa, que provavelmente venha a ser o grande luzeiro da linha albanesa toscamente desenhada para os próximos quatro anos. Se alguma surpresa houver, será a descoberta da fórmula alquímica que transformará em seguidores fiéis da nova doutrina quadros importantes que o governador pretende reconvocar. Homens de proa na administração passada, tais como Orlando Pessuti, Reinhold Stephanes, Heron Arzua, Luiz Forte Netto e a mais recente aquisição, o ex-conselheiro do Tribunal de Contas, Rafael Iatauro, ao que se sabe, nunca contaminados pelo germe da maleita do esquerdismo, mas dela fugindo ?como Satanás da água benta?, para usar expressão de domínio do próprio Requião, se fizerem opção pela Carta de Puebla para prosseguir no time governamental, forçosamente terão de passar pelo filtro dos guardas da neo-revolução cultural e submeter-se ao processo de lavagem cerebral ditado pela vulgata prenunciada na última segunda-feira.

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Em algum momento futuro será conhecida a real dimensão das conseqüências da profissão de fé do governador Roberto Requião, e essa extemporânea depredação das relações entre os que pensam de forma contrária – aí incluídos os meios de comunicação, os adversários políticos e a elite – a quem se nega, em conjunto, de maneira grotesca, o límpido direito ao contraditório. Nada mais arcaico, como enunciava o notável pensador Isaiah Berlin, do que crer nas visões equivocadas que escancaram o vazio dos pressupostos sobre a sociedade e a natureza humana em que se baseia a crença em soluções absolutas e universais.

Pascal afirmou que ?a fonte de todas as heresias é não conceber o acordo de duas verdades opostas?, embora afigure esforço sobre-humano exigir dos que somente têm olhos para o próprio umbigo a compreensão da magnitude desse ensino. É uma lástima, ainda mais porque a frase de Pascal nos põe em contato com outra verdade solar, concebida pelo filósofo Walter Benjamin, para quem ?não há um sinal de civilização que não seja também um sinal de barbárie?.

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Ajuda-nos a purgar o momento borrado por tintas sombrias a lucidez de Edgar Morin, ao prognosticar que ?o maniqueísmo caracteriza apenas as camadas mais baixas da ação política, no lugar onde ela se degrada em fanatismo obtuso: se ele traz a energia do ódio contra o inimigo, ele traz também a cegueira e a miopia para as verdadeiras disputas do combate e desnaturaliza o próprio sentido de uma ação com finalidade ética?. Ele fez também a saudável advertência: ?Não é suficiente ser perseguido para se tornar o melhor. O papel de vítima conduz muitas vezes ao de carrasco?.

Ivan Schmidt é jornalista.