O direito de morrer

Na vida emotiva, nascemos e morremos várias vezes. Mas 15 anos sem sorrir, sem caminhar, sem alegrias e tristezas, isso é vida? A vida começa no momento da fecundação, dizem alguns. Mas qual a sensação que temos desse exato momento, ou da vida intra-uterina? Ou a vida começaria então quando se chora pela primeira vez, motivando o sorriso dos pais? Será que nessa fase já é possível ter alguma noção sobre a própria vida?

É certo que a vida se inicia no útero. Mas quando passei a notar a existência dela? No meu primeiro desejo, no primeiro tapa que levei, ou na queda, quando chorei. Pode ter sido na escola, quando me alfabetizaram. Ou na primeira mão feminina que segurei – e o coração bateu forte. Ou ainda quando me excitei sexualmente pela vez primeira. Ou foi no dia que passei no vestibular. No dia em que me formei. Primeiro emprego. Primeira viagem que, com os olhos de viajante somados ao dos locais, enxerguei o belo, o feio, o alegre, o triste.

Todos esses momentos foram vida. Em cada dia, nasci e vivi outra vida. Eis o que importa: cada momento é diferente, uma vida dentro da outra. Nasci com uma vida. Dentro dela, emoções. Cada emoção, uma vida. Muitas vivi, vivo e viverei. Assim, todo dia pode ser a primeira vez a viver uma vida ou outra vida.

E a última vez, quando será? Os poetas cantam as emoções, a vida e a morte. Mário Quintana cantou: ?Da vez primeira em que me assassinaram / Perdi um jeito de sorrir que eu tinha. / Depois, de cada vez que me mataram / Foram levando qualquer coisa minha?.

Se existiu a primeira vez em que fomos assassinados, é porque logo após o assassinato nascemos novamente. Na vida emotiva, nascemos e morremos várias vezes. A cada vez que nascemos, ganhamos um jeito novo de sorrir, de ver a vida, de interpretá-la. Aprendemos que não se deve deixá-la passar em branco e preto. É preciso colori-la.

Essas coisas vêm agora à minha mente com o caso da norte-americana Terri Schiavo, e o conseqüente debate sobre o direito de viver e o direito de morrer, destaque da mídia mundial. Para aqueles que não têm acompanhado o caso, um resumo. Em 1990, Terri Schiavo, então com 26 anos, sofreu uma parada cardíaca. Foi reanimada, mas seu cérebro por vários minutos foi privado de oxigênio, o que lhe causou uma vida vegetativa. Além de não ter nenhum movimento muscular, Terri não tem noção de nada que ocorre ao redor. Nessa situação clínica, há 15 anos ela vem sendo alimentada e hidratada através de uma sonda gástrica.

Seu marido, com as mais diversas alegações, tenta na Justiça obter o direito de retirar essa sonda – coisa que conseguiu há poucos dias. Por isso, o intenso debate: tem direito ele, apesar de ser considerado legal, de retirar a sonda?

Segundo o dicionário Aurélio, ?eutanásia? é a morte serena, sem sofrimento. É abreviar, sem dor ou sofrimento, a vida de um doente reconhecidamente incurável.

Retirar a sonda, como é o caso de Terri, não é a mesma coisa que a eutanásia, como alguns têm dito. Sua situação é incurável. Portanto, não seria mais digno e justo a prática da eutanásia, do que a morte lenta por inanição e/ou desidratação?

Ou mais digno e humano é esperar a morte, que chegará com o tempo como chegará para todos, e imaginar que o que Terri tem também é vida? Mas quinze anos sem sorrir, sem caminhar, sem alegrias e tristezas, isso é vida? Se todo dia pode ser a primeira vez a viver uma vida ou outra vida, a pergunta que se faz é a seguinte: quando será a última?

Infelizmente, por inúmeras razões (morais, éticas, religiosas ou legais), cabem aqui muitas reflexões. Não temos direito, nem a oportunidade de optar quando será a última.

Florisvaldo Fier (Dr. Rosinha) é médico pediatra, deputado federal (PT-PR) e presidente da Comissão do Mercosul. dr.rosinha@terra.com.br

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