“O dinheiro de quem não dá / é o trabalho de quem não tem / capoeira que é bom não cai / e se um dia ele cai, cai bem…”. O trecho de “Canto de Ossanha”, clássico da Música Popular Brasileira composto por Baden Powell e Vinícius de Moraes, poderia muito bem estar incluído na pesquisa divulgada na última terça-feira pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que mostra que as classes mais baixas da população precisam trabalhar 197 dias para pagar todos os impostos de um ano.

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A matéria, que foi destaque na edição de quarta-feira de O Estado, detalha a pesquisa: “É quase o dobro dos 106 dias de esforço exigido dos brasileiros mais ricos do País, que ganham acima de 30 salários mínimos. Uma diferença de três meses e meio em relação ao esforço dos trabalhadores mais pobres com renda até dois salários mínimos. Com base na Carga Tributária de 2008, o estudo do Ipea, que é um órgão de pesquisa do governo federal, mostra que esse desequilíbrio histórico da economia está aumentando e longe de ser resolvido. De 2004 para 2008, o comprometimento da renda com o pagamento de tributos dos brasileiros aumentou mais para os pobres, crescendo a distância que separa dos brasileiros mais ricos”.

Neste momento, surge uma contradição brutal entre discurso e realidade. Quando fala para o povo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa claro que “nunca antes na história deste País” houve tanta distribuição de renda. É verdade, mas em uma casta que sofria com a quase miséria. Bolsa-Família não tem imposto, mas e quem trabalha?

E justamente na população economicamente ativa que o impacto dos impostos é grande. São os que trabalham e veem seus salários consumidos pelos tributos. E, claro, também pagam ao comprar qualquer produto. Daí a soma de quase 200 dias para trabalhar, que deixa para o cidadão menos tempo para produzir e conseguir sustentar a sua família. Afinal, restam 165 dias, sem contar os descansos semanais e as férias. Não há distribuição de renda que resista.

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