Mefistófeles renasce em ciclos intermitentes sem compromisso com a exatidão minuciosa de períodos demarcados em calendários e tampouco restringindo o número de emuladores de sua odiosa personalidade. Ao contrário, o escarninho corifeu da intriga tem motivos para se envaidecer com a disposição de não poucos doidivanas que a ele se prostram como obedientes servidores.
O psiquiatra holandês Joost Merlo, que já citei neste espaço, autor do livro Lavagem cerebral (Ibrasa, SP, 1980), é o criador do magistral neologismo ?menticídio?, aliás, a essência propriamente dita da extensa pesquisa que realizou durante muitos anos de clínica e experimentações, para compreender as razões da destruição sistemática da mente humana por meio de métodos de coerção empregados por governantes para submeter governados.
Merlo afirma que muitos desses governantes foram hábeis no emprego da ?tática de se queixar e clamar por justiça?, a seu juízo criterioso, ?uma defesa mental muito conhecida, usada pelos indivíduos neuróticos para despertar sentimentos de culpa nos outros e recobrir a própria agressividade profunda?.
Com a segurança do profissional que domina sua área, Merlo percebeu que ?o administrador sabe que o povo tem os olhos voltados para ele; sente-se exposto à crítica e ao ataque político?, prenunciando o momento determinado em que o governante terá necessidade de ?criar uma fachada defensiva para cortejar o público e os eleitores?. Sua conclusão acresce em significado, sobretudo, se posta sob as lentes de uma experiência bastante próxima: ?E como conseqüência, pode acontecer que o democrata moderado de outrora, que acreditava no governo pelo povo, assuma a catadura de uma personalidade autoritária, deixando-se guiar por fantasias de mando infantis e frustradas?.
Escritos num contexto profundamente marcado pelos horrores da Segunda Guerra Mundial, esses apontamentos podem parecer exagerados para os dias atuais. Contudo, se o observador estiver antenado à reconhecida fertilidade do ovo da serpente fascista, conforme a visão não apenas metafórica do cineasta Ingmar Bergman, irá compreender que ?as palavras adquiriram, a serviço do poder, uma função especial que podemos chamar de verbocracia?. E numa outra chave, ainda mais ultrajante, poderá vislumbrar que ?a tarefa do propagandista totalitário é compor imagens apropriadas no espírito da população, de forma a que, por fim, ela não enxergue e não ouça com seus olhos e com seus ouvidos, mas apenas veja o mundo através do nevoeiro das palavras de engodo oficiais, desenvolvendo respostas automáticas ajustadas à mitologia totalitária?.
É aterrador pensar que no início do novo milênio, diante dos ingentes desafios da problemática social, persista a tragédia que tem suas vítimas preferenciais entre jovens de 18 a 25 anos, os que não conseguem romper a ignominiosa barreira do desemprego e, numa autêntica guerra de selvagens, a faixa etária que assoma ao cadafalso com o maior número de vítimas de crimes devidos à violência urbana. Mais aterrador, ainda, é constatar que persistam governantes inebriados pela contemplação do próprio umbigo.
Voltemos a Merlo para uma tentativa de compreender melhor o funcionamento das engrenagens invisíveis dessa astuciosa máquina de dominação mental: ?A palavra oficial deve ser acreditada e deve ser obedecida. A dissenção e o desacordo se tornam um luxo ao mesmo tempo físico e emotivo. A injúria, com todo o poder que ela encobre, é a única lógica permitida. Suprimem-se e deturpam-se os fatos contrários à linha oficial; qualquer forma de compromisso mental é traição?.
Não seria demais acrescentar uma pitada sobre a técnica de usar palavras sugestivas, repetidas com suspicácia: ?Diga ao povo que ele foi traído e abandonado por seus chefes. De vez em quando, o demagogo ajuntará gracejos, mas poucos. O povo gosta de rir. Gosta também de horrorizar-se e tem especial atração pelo macabro?.
Por fim, a verdade definitivamente restauradora: ?A subversão de opiniões não pode nunca ser crime. O direito de divergir é a pedra angular da democracia?. Aqui e no caixa-prego…
Ivan Schmidt é jornalista.