A ex-juíza e deputada federal Denise Frossard (PPS-RJ), um dos destaques da CPMI dos Correios, disse outro dia estar convencida da formação de um grupo destinado a empreender a captura das estatais mais importantes do País, com a finalidade de amealhar recursos financeiros para campanhas eleitorais vindouras.
Por sua vez, o deputado Roberto Jefferson havia declarado inúmeras vezes que, quando um partido consegue emplacar indicações na diretoria dessas empresas, a lógica é estabelecer aproximação com as organizações prestadoras de serviços e/ou fornecedoras do governo visando facilitar a arrecadação, realizada por dentro e por fora, como confessou sem o menor pejo.
Ora, se é assim, estamos diante de nefanda forma de misturar interesses públicos e particulares num só balaio, infelizmente, aquele que leva o rótulo da corrupção escancarada. O ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, em seu depoimento ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados, afirmou que a súbita revolta de Jefferson, até então disciplinado prócer do governo Lula, se deveu ao não-atendimento dos insistentes pedidos de novas nomeações.
Denise Frossard, com a prática jurídica adquirida nos tribunais, depois de ouvir os primeiros depoimentos na CPMI dos Correios, chegou com facilidade ao fulcro do enigma. Jefferson confirmou que a prática é ancestral num País cuja gestão pública foi transformada numa cloaca pelos maus políticos. Dirceu referiu-se à malha de influência que o PTB pretendia manter no governo Lula, mediante a nomeação de dirigentes nas estatais.
A condição vivida hoje é tanto mais abjeta e deplorável quando afluem à mente as teses levantadas pelo candidato Luiz Inácio na campanha de 2002. Ninguém imaginava que um governo estribado em idéias de justiça social defendidas pelo Partido dos Trabalhadores desde a fundação fosse subvertido em pouco pela lógica maniqueísta encalacrada na política brasileira.
Dirceu disse, com a candura de noviça recém-admitida no convento das carmelitas descalças, ser de conhecimento geral a necessidade de formatar um bloco majoritário no Congresso. Lula, num de seus costumeiros surtos de euforia desconectada da realidade, creditou ao defenestrado primeiro-ministro, entre outros elogios, a habilidade de ter costurado a base de sustentação. Sem a competência do Zé isso não teria acontecido, babujou o presidente da República.
A montagem do esquema de sustentação congressual do projeto de governo deu-se com base na conquista do PTB, PP, PFL e das entranhas fisiológicas do PMDB, graças aos bons ofícios dos senadores José Sarney e Renan Calheiros. Dirceu não foi competente na ação de engaiolar no reducionismo condescendente os partidos socialistas (PDT, PPS e PSB), que pegaram o chapéu e deram o fora, quem sabe ao sentirem o cheiro inconfundível da podridão anunciada.
Não se pode desprezar a engenharia política aplicada ao Partido dos Trabalhadores sob a tutela do Campo Majoritário, congregação de tendências moderadas eleita para comandar o diretório nacional. Foi nesse contexto que despontaram na executiva José Genoino, Delúbio Soares, Sílvio Pereira e Marcelo Sereno. Pouco depois, dá-se a entrada em cena do publicitário Marcos Valério, trazido pelas mãos do deputado Virgílio Guimarães.
Se o raciocínio estiver correto, e não subsistem dúvidas quanto a isso, avaliada a carga de indícios confirmados com indesejável precisão pela CPMI ou pelo jornalismo investigativo, que tanto mal tem causado ao presidente Lula nas últimas semanas, a deputada Denise Frossard ficará com o mérito de ter radiografado a índole do corpo estranho enquistado no governo.
Contratos milionários de publicidade com estatais, recursos oriundos de empresas privatizadas depositados em contas bancárias da SMPB e DNA, empréstimos vultosos obtidos por Delúbio com o aval do glabro publicitário, repasse de R$ 55 milhões a vários deputados ou coordenadores de campanhas políticas, incluindo o PT, com saques efetuados na agência do Banco Rural em Brasília, são os principais ingredientes da trama diabólica armada para a captura do dinheiro público.
Enfim, crônica de horror digna da assinatura do imortal romancista Joseph Conrad. Como na saga de Kurtz, tem-se a nítida sensação da chegada ao coração das trevas.
Ivan Schmidt é jornalista.