Hélio Duque
Morrer é um fato natural da vida. Mas há momentos em que ele vem em hora errada. A morte prematura do brasileiro Dante de Oliveira, idealista e valente lutador democrático, se inscreve nessa tragédia humana. Quis o destino que desaparecesse aos 54 anos, quando tanta contribuição teria a oferecer, nesse tempo de aviltamento caviloso da vida política nacional. Ao receber a notícia da sua morte, fui invadido por profunda angústia e tristeza. Mais do que isso, foi uma parte amputada de uma geração que sempre fez política objetivando edificar uma sociedade decente, justa e harmonizada nos valores democráticos.
Nosso último encontro foi em Belo Horizonte, quando da convenção nacional do PSDB, no último mês de junho. Anteriormente, me presenteara com um exemplar do livro que escreveu com Domingos Leonelli, por título Diretas já – 15 meses que abalaram a ditadura. São 612 páginas que traduzem com fidelidade o que foi a luta para recolocar o Brasil perfilado ao lado dos estados democráticos.
Mato-grossense de nascimento, foi na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde fora estudar engenharia civil, curso concluído em 1975, que Dante de Oliveira despertou para as lutas políticas. Integrou a linha de frente das lideranças universitárias que resistiam aos ?anos de chumbo? da intolerância. Em 1976, volta à sua querida Cuiabá e passa a integrar o MDB, elegendo-se deputado estadual em 1978. Assume a secretaria geral do partido e estrutura uma legenda forte em todo o estado.
Sendo eu deputado federal, em abril de 1979 convidou-me para a criação do Comitê da Anistia em Mato Grosso. Também convidado, o líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva. No dia seguinte, nos deslocamos de avião para os municípios de Nortelândia e Poxoréu, onde grandes concentrações populares de trabalhadores rurais se realizaram. Na volta a Cuiabá, Lula afirmou que aquela fora a primeira reunião que fazia com trabalhadores do campo. Certamente o presidente da República não deve ter esquecido.
Dante era esse dínamo sempre lutando por justiça e dignidade. Elege-se deputado federal e na abertura dos trabalhos legislativos, em março de 1983, apresentou emenda constitucional com 15 linhas, assinada por 23 senadores e 177 deputados, propondo o restabelecimento das eleições diretas para presidente. Autêntica revolução democrática. Com a adesão de todos os governadores de oposição a campanha ganhou as ruas e praças do País. O mote ?Diretas já? e ?Quero votar pra presidente? levam os brasileiros aos milhões ao irresistível desejo de mudança. A esperança e o sonho mostravam quem devia ser o dono do País.
Foi no Paraná, na Boca Maldita, em Curitiba, em 12 de janeiro de 1984, que se realizou o primeiro grande comício pelas ?Diretas já?. O governador José Richa, o prefeito Maurício Fruet e o senador Alvaro Dias, presidente do PMDB, reuniram mais de 50 mil manifestantes, dando o tiro de largada para o renascimento da voz da sociedade civil. O grito se multiplicaria por vários estados e incendiaria o Brasil. O PDS e o governo militar resistiam. A votação da emenda seria em 25 de abril. Na véspera, o governo Figueiredo decretou estado de emergência em Brasília, executado pelo general Newton Cruz. O quorum para apuração seria de 320 votos. Infelizmente obteve 298 votos a favor, 65 contra, três abstenções e 112 deputados governistas fugiram do plenário.
Derrotada a tese da eleição direta, o caminho foi o Colégio Eleitoral, já agora em outro cenário. O partido oficial se dividiria e Tancredo Neves seria eleito presidente. Infelizmente morreu antes da posse. Renascia o estado democrático de direito e o instrumento de mobilização foi a Emenda Dante de Oliveira. Derrotada, tornou-se vitoriosa por despertar o sentimento democrático da pátria.
Prefeito de Cuiabá por duas vezes, de 1985 a 1988 e de 1992 a 1994, igualmente governador, por dois mandatos, 1994 a 2002, imprimiu nas suas administrações o rito da competência modernizadora e desenvolvimentista naquela unidade federativa. Foi ministro da Reforma Agrária, quando desapropriou 88 áreas para fins da reforma fundiária, uma área de 2 milhões de hectares, quando os governos anteriores haviam desapropriado 42 áreas.
Modesto e simples, Dante de Oliveira só tinha olhos para o Brasil. Sua primeira viagem ao exterior, à qual resistia, foi inesquecível. Integraríamos uma delegação em visita ao Leste Europeu. Paramos alguns dias em Paris. Numa noite desejou conhecer Montmartre e lá fomos nós. Encantou-se com o champagne e repetia à exaustão ?trés bien?, ?trés bien?, desacostumado que era com consumo etílico. Demonstrava o extasiamento com a Cidade Luz. Era essa simplicidade humana e generosa que marcaria sua vida. E foi assim que entrou pela porta da frente da história da democracia brasileira. Agora partiu para a vida eterna, mas para os seus fraternos companheiros de travessia, os sinos sempre dobrarão na saudade de um intimorato lutador.
Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.