Machado de Assis não é apenas o maior autor clássico da literatura brasileira. Durante 40 anos foi um servidor público exemplar e afirmava: ?O desejo de servir tem mil maneiras de se manifestar?. A sua pena de escritor universal não só produziu as mais belas páginas do romance brasileiro, integrou um contingente, em sua grande maioria, composto de pessoas que oferecem à sociedade suas capacidades, talentos e habilidades em sua labuta diária.
Na contemporaneidade do seu tempo foi um símbolo do servidor público que se transmuta em alma de administração. Fundou a Academia Brasileira de Letras, militando numa luta intimorata pela valorização e reconhecimento dos anônimos escritores brasileiros. À sua genialidade literária, Machado de Assis, por quatro décadas, serviu ao Brasil na condição de administrador público competente e orgulhoso, no século XIX.
É dessa época que surge e se consolida ao longo da sua história uma instituição que viria a ser a grande escola da administração pública brasileira em todos os níveis: o Banco do Brasil. No século XX, foi o grande fornecedor de quadros competentes e profissionalizados que dariam fundamental contribuição para o avanço e modernização da administração pública nacional. Na República, ao largo de toda a sua existência, em diferentes momentos democráticos ou autoritários, grande fornecedor de figuras qualificadas para gerir os interesses públicos, o Banco do Brasil tem liderança absoluta.
A racionalização da máquina administrativa no Brasil teve na década de 30 do século passado o seu momento máximo com a criação do Dasp, que iria implantar a meritocracia do concurso nas carreiras básicas do estamento estatal. Era o começo de uma nova era, onde o QI valorizativo era o da inteligência e não de ?quem indica?.
A simetria aplicada se baseava naquela que já era uma política de pessoal aplicada pelo Banco do Brasil. Na década de 50, com a implantação do desenvolvimento substitutivo de importações, as empresas públicas criadas e grande número de empresas privadas foram buscar os seus principais executivos naquela instituição. Na área oficial, organismos como Petrobras, Vale do Rio Doce, BNDE, Banco do Nordeste e outros tantos tiveram seus dirigentes egressos do Banco do Brasil. Na década de 60, no governo Castelo Branco, ao ser criado o Banco Central, a sua base constitutiva foi a antiga Sumoc (Superintendência da Moeda e do Crédito), órgão até então subordinado ao BB. E não fica apenas restrito a esses exemplos, eles são multiplicativos, envolvendo toda a estrutura republicana.
Na França, em 1945, Charles de Gaulle, ao criar a ENA (Escola Nacional de Administração), objetivava a formação de uma elite de servidores públicos neutra, sem ideologia ou religião. Hoje aquela instituição é referência européia na formação de quadros com nível de excelência. Basta dizer que os três últimos presidentes da República e dez primeiros-ministros foram alunos da escola.
No Brasil, não chegamos perto e parece estar muito longe a criação de uma instituição similar à francesa. Há de se reconhecer que mesmo não tendo a estrutura pedagógica de uma escolaridade formal, vocacionada para a formação de profissionais do poder, o Banco do Brasil, nas últimas décadas, transformou-se em verdadeira escola informal no fornecimento de quadros qualificados para a administração pública e mesmo privada.
Lamentavelmente, nos últimos anos, alguns dos seus mais experientes e dedicados profissionais vêm sendo desestimulados e muitos marginalizados na sua estrutura. Quem já tem tempo suficiente para a aposentadoria, faz a óbvia opção. Outros, pelo excelente curriculum que possuem, buscam a transferência para outros órgãos públicos, onde têm a sua competência profissional reconhecida e festejada pela aquisição.
Não se pode e não se deve querer aparelhar com fundamentos de um reacionário primitivismo ideológico uma instituição do nível do BB. Infelizmente, é o que está ocorrendo. Ressalta-se que nem no período mais truculento e perseguidor do regime autoritário se buscou marginalizar os servidores competentes. Acrescido do fato de o sindicalismo militante da instituição ter sido vanguarda na luta pela redemocratização.
O Banco do Brasil é uma instituição republicana. Não é propriedade de governos, partidos ou seitas. É patrimônio do povo brasileiro.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.