O alerta de Santayana

Nos idos de 1968, o jornalista Lauro Bulik, correspondente do Jornal do Brasil na Europa, encontrava-se em Praga, na então Tchecoslováquia. Foi responsável por um fato jornalístico de repercussão mundial. Testemunhou a chegada dos tanques soviéticos à Praça Venceslau, para esmagar a ?Primavera de Praga?. O exército soviético invadia o país para derrubar o governo de Alexander Dubcek, que implantava um caminho diferente, tentando uma alternativa nova ao coletivismo burocrático.

Lauro Bulik foi o primeiro jornalista a assistir, por enorme coincidência e sorte, a intervenção militar de Moscou. Munido da sua máquina fotográfica registrou a movimentação golpista das tropas russas. A fotografia correu o mundo através das agências de notícias. Os textos igualmente impecáveis. Um furo jornalístico mundial. No Rio de Janeiro, o Jornal do Brasil, através do seu aplicado e competente profissional, em memoráveis reportagens por vários dias, registrou com precisão e testemunhos documentais a liquidação do ?socialismo com face humana?, preconizado pelo reformista Dubcek. Foi um grande momento da imprensa brasileira.

Quem era Lauro Bulik?

Era um jornalista de Belo Horizonte. Mineiro de vivência, gaúcho de nascimento, após o golpe militar de 1964, diante da repressão e da perseguição dos vitoriosos foi obrigado a exilar-se. Na Europa, tornou-se correspondente internacional do JB (na sua fase áurea), adotando nas suas matérias o pseudômino de Lauro Bulik. E assim as suas matérias eram editadas no Brasil.

O verdadeiro Bulik era essa notável figura humana: Mauro Santayana. Um exemplo de profissional ético que integra a galeria dos marcantes homens de imprensa na história do jornalismo brasileiro. Há algum tempo não encontro o Mauro, mas sempre que o vejo, a minha saudação é direta: ?Como vai, Lauro Bulik??.

Agora com o seu olhar de águia e observador cuidadoso da vida brasileira, Mauro Santayana afirma, no JB, ter a impressão de que o Estado não mais representa o povo no Brasil. Aduzindo, parece ser uma empresa em processo falimentar com os sócios disputando o espólio. É um diagnóstico terrível e que não nasce da constatação de nenhum leviano beletrista, ou de acumpliciado com o patriciado nacional. O governo Lula deveria abandonar o deslumbramento e a arrogância e meditar sobre as palavras e o seu pensamento oportuno.

Observador arguto e militante da vida política brasileira, ele conhece todos os ângulos do poder. Basta lembrar que o saudoso Tancredo Neves tinha em Mauro o grande colaborador, pensador e redator dos seus mais importantes pronunciamentos políticos. A isso somando-se uma amizade e confiança que o fazia, a um só tempo, ouvinte e conselheiro daquele que foi um dos ícones da vida nacional do século passado. O discurso de posse de governador em Minas Gerais e aquele que Tancredo Neves faria quando da posse na Presidência da República, que infelizmente não pôde ser feito, tiveram em Mauro Santayana o seu principal redator.

É conhecedor e vivenciador, como poucos, da complexidade da vida política e do poder nacional, aliada a uma visão internacional privilegiada. Seja pelo longo período do exílio na Europa, ou pelo tempo em que serviu ao Brasil, na Itália, como adido cultural. A sua observação não pode ser desprezada e creditada às primitivas concepções ideológicas dos ocupantes do poder em Brasília, para os quais toda crítica tem sua origem nas teorias conspiratórias.

Quando faz o alerta, comparando a administração do Estado a uma empresa em processo falimentar, Santayana está procurando ajudar os detentores do poder a mudar a estratégia que não está dando certo. Ao invés de ofender-se, o governo Lula deveria meditar e encontrar na formulação de Mauro Santayana um caminho de correção para a conjuntura adversa em que a sua administração está engolfada. Não se governa com ?slogans? nem com ?marketing? de maneira permanente. Esses recursos têm prazo de validade efêmero.

O governo deveria ouvir mais o que têm a dizer brasileiros como Santayana e menos os Dudas Mendonças. Poderia ser um recomeço para evitar a ?satanização? que se aproxima no horizonte.

Hélio Duque é ex-deputado federal.

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