Ivan Schmidt
Onde foi parar a salutar idéia de que a esperança suplantaria o medo e, afinal, o povo brasileiro teria um governo, desde a experiência frustrada de Jânio Quadros, em 1961, determinado a empreender, ao fim e ao cabo, o resgate da dignidade dos cidadãos? Parafraseando Terry Eagleton no livro As ilusões do pós-modernismo (Jorge Zahar Editor, RJ, 1998), esse pretenso iluminismo, como seu predecessor histórico, foi dar inevitavelmente nos campos de concentração?
Concordo com a aspereza da analogia, mas ao mesmo tempo encareço que é forçoso admitir o ceticismo generalizado em relação ao governo Lula, e à sua pessoa em particular. Aliás, fato medido de forma conspícua pela última pesquisa realizada pelo Ibope e na qual, pela primeira vez desde a posse, Lula perde para José Serra já no primeiro turno.
Ainda conforme o raciocínio do professor de inglês da Universidade Oxford, mesmo que seu foco estivesse em contexto mais amplo e distinto, os recentíssimos episódios protagonizados em Brasília escancaram uma galáxia de conjunturas adversas para os que viram na ascensão de Lula à presidência da República uma espécie de partejamento de anseios represados há cinqüenta anos. O abatimento moral que agride milhões de patrícios nesse momento é tanto mais frustrante quando se chega a compreender a impossibilidade da construção do concreto, como todos sabem, prometido no discurso com que Luiz Inácio assoalhou sua entrada triunfal no Palácio do Planalto, beneficiário de quase 53 milhões de votos. Poder-se-ia dizer como Adorno, e mais uma vez a referência pode e deve chocar, porquanto no original tenha sido formulada em comentário sobre a repugnância que lhe causava Auschwitz, estarem muitos vivendo ?o absoluto do sofrimento?.
Eagleton, que escreveu seu livro muito antes dos episódios desencadeados pelo vídeo flagrando um funcionário dos Correios na receptação de propina de três mil reais, observada a acuidade filosófica e visão histórica com que enuncia suas teses, oferece-nos uma plataforma de surpreendente e estreito vínculo com o melodrama do governo e seu esquema de sustentação política. ?Se a história é mesmo fortuita, e se existe, como gostariam os liberais, um pouco de bem e de mal em todos nós, então seria de se esperar, pela lei das probabilidades, que de tempos em tempos a história tivesse apresentado alguns regimes moralmente exemplares, ou no mínimo moralmente dignos de crédito.?
Para nós, brasileiros, nesse início de século, se o pensamento de Eagleton não ameniza a adversidade, pelo menos faz as vezes do bálsamo relaxante. De pronto, afirma que a idealização transcrita acima ?decerto não aconteceu?. E adianta: ?O que a maioria das pessoas de certa decência consideraria virtude nunca fez parte da ascensão política, senão por breves momentos e de maneira atípica. Ao contrário, o registro político da humanidade revelou-se desanimador. A partir do momento em que apareceram na terra, os seres humanos prejudicaram, espoliaram e escravizaram sistematicamente uns aos outros?.
O professor não nega que também houve ?uma boa dose de esplendorosa bondade?, posto que na maior parte das vezes restrita ?à esfera privada?.
?Antigamente, os heróis eram heróis. O Super-Homem era um invencível e musculoso defensor da lei, Mandrake era o tal com seus toques mágicos, Flash Gordon enfrentava os mais bizarros monstros de todo o Universo com a mesma calma com que se esmaga uma barata. Esses eram os bons tempos, a época dourada das histórias em quadrinhos.? A incomparável abertura foi escrita por Alfredo Grieco para o belo ensaio Onde estão os heróis de outrora?, publicado pelo Livro de cabeceira do homem (volume VII), festejada mas passageira iniciativa da Editora Civilização Brasileira no final dos anos 60s, somente rivalizada pela revista Oitenta da gaúcha L&PM, também de vida curta. Não há mais heróis, é a constatação lamentosa. Como diria Cazuza, os últimos morreram de overdose.
Antigos ginasianos do início da segunda metade do século passado por certo lembram-se das aulas de História do Brasil e do desfile de patriotas da estirpe de José Bonifácio, Rio Branco, Patrocínio, Vidal de Negreiros, Felipe Camarão e Pedro Ivo, entre outros. Homens que deram o melhor de si por amor ao Brasil, cujos exemplos infelizmente jazem ocultos e embolorados em bibliotecas desertas. A cena de hoje tem reduzido espaço para esse tipo de caráter, embora o exemplo de milhões de excluídos que resistem à miséria sem tugir nem mugir.
A história imediata é povoada por figuras sinistras como Roberto Jefferson, Valdemar Costa Neto, José Janene, Delúbio Soares, Marcos Valério Fernandes de Souza, Waldomiro Diniz, Rogério Tadeu Buratti e assemelhados.
Aos que não desistem nunca, mesmo antevendo o crucial desafio, e mourejam em busca do caminho novo, convictos de sua existência efetiva, vale a pena relembrar a fórmula de Ralf Dahrendorf: ?O caminho para adiante requer uma nova definição, como também uma afirmação da cidadania, das chances de vida e da liberdade?.
Ivan Schmidt é jornalista.