Ivan Schmidt

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Mesmo que alguns observadores tenham dificuldade para compreender e aceitar certas atitudes, as coisas são como nos parecem e não da forma como apreciaríamos que fossem, em claudicante contraponto à sapientíssima síntese de Luigi Pirandello. É o mínimo que se pode dizer sobre a severidade com que o governador Roberto Requião reclama a freqüência pontual do público-alvo da chamada escola de governo, que os trocistas apelidaram de escolinha do professor Raimundo e cuja aula magna semanal ocorre às terças-feiras, mal deglutido o desjejum.

Na última terça, o relato dos repórteres que cobrem a pauta fez-se alentado, nem tanto pela relevância dos temas abordados ultimamente, de si mesmos tão insípidos como a canja servida a um convalescente, mas pela usual prosódia do governador e seus destemperos verbais em relação aos absenteístas. Requião não perdoou os ouvintes relapsos, aliás, distinguidos com cargos bem remunerados, considerada a média salarial dos demais servidores, ou mesmo os salários pagos pela iniciativa privada.

Diante do imenso deserto de cadeiras vazias no auditório do Museu Oscar Niemeyer, o mestre-escola subiu nas tamancas e ameaçou com demissão sumária todos os que tiverem a ousadia de repetir a façanha na próxima aula. Um perereco. Na verdade, um sobressalto a mais na contabilidade pessoal dos detentores de ambicionados cargos em comissão, a ambrosia do serviço público, tendo em vista a fase de transição entre um e outro mandato, momento prenhe de aflição e insegurança em que muitas cabeças acabam rolando para o cesto.

Sequer a idade provecta de não poucos auxiliares bem posicionados na administração estadual foi suficiente para atenuar a bronca matinal do governador, quem sabe, alfinetado pela carência interior de reivindicar autoridade, ao pressentir a erosão do mando incontestável. Não é exagero lembrar que tais senhores tornaram-se merecedores de tratamento respeitoso, não só pela bagagem de experiência que emprestam à sua atuação funcional, mas, em primeiro lugar, pelo fato de terem aceitado o convite para trabalhar num governo que o senso comum confirma estar assinalado por manifestações ciclotímicas cada vez mais constantes.

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Há um pensamento iluminado de Antonio Candido, homem de vasta cultura humanista, que declarou há algum tempo: ?Mandar é uma atividade que envolve atos, relações e sentimentos muito complicados, afetando a humanidade de quem manda e de quem obedece. Aqui me limitarei ao mando de natureza política, isto é, o mando considerado como elemento inerente ao exercício do poder?. A apreciação foi feita na abertura da palestra pronunciada no ciclo de conferências ?A ética?, organizado em 1992 pela Assessoria de Projetos Especiais da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

A perspectiva utilizada por Antonio Candido foi A tragédia do rei Ricardo II, de William Shakespeare, um dos dramas históricos da Inglaterra recontados pelo famoso bardo. Apesar do extraordinário manancial de verdades ainda válidas para desnudar realidades que só viriam a ocorrer no início do século XXI, é pouco o espaço para comentar as digressões do crítico sobre o percurso do rei inglês. Ficarei com o essencial, o enunciado do conflito entre o mando e a obediência. A estrutura do mando se baseava, então, no princípio do direito divino dos reis, ?inato e de ordem biológica, pois é hereditário e se transmite pelo sangue?. Nesse caso, a pessoa que o exercia era Ricardo Plantageneta, descrito ?como homem brilhante, volúvel e pouco eficiente?.

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Na verdade, diz Candido, a peça de Shakespeare contava a história de uma desestruturação do mando, lembrando simplesmente que ?Ricardo tem o direito divino e foi investido da realeza, mas é incompetente?. E é essa desqualificação que desemboca no seu destronamento, sugerindo que na estrutura do mando e da obediência há muito de ilusão, mesmo em se tratando de um direito adquirido duma instância infinitamente superior à dos seres humanos.

?Quem pensa mandar pode estar sendo joguete?, advertia finalmente o crítico, enfatizando que o poder era, é e será ?sempre transitório e relativo?, tanto na velha Albion quanto entre os comedores de pinhão de Coré-Atuba.

Ivan Schmidt é jornalista.