A indústria brasileira não pode mais viver ao sabor da conjuntura. Os dados mais recentes de otimismo sobre produção e vendas para 2006 e o desempenho positivo do emprego no setor no primeiro bimestre do ano devem ser considerados como aquilo que realmente são: um retrato de momento, nada mais do que isso. Gostaríamos de poder projetar este quadro róseo para médio e longo prazos, mas nossa responsabilidade de administradores não o permite.
Análises apressadas dos últimos números da indústria podem levar os mais desavisados a concluir que os industriais reclamam sem razão. Afinal, criticar a política econômica por quê, se 56% dos 491 empresários pesquisados pela Fundação Getúlio Vargas crêem em aumento da produção no próximo trimestre e o emprego formal no setor cresceu 8,5% no acumulado dos últimos 12 meses?
Não contestamos a veracidade destas informações. Quando, no entanto, estudam-se estes números de maneira mais acurada, as análises que eles suscitam apenas confirmam o nosso ponto de vista, de que é necessária uma alteração radical na política econômica, sob pena de, passado o efeito anestésico da conjuntura favorável originada por medidas pontuais de distensão econômica como redução de juro, expansão do crédito e do investimento público, o paciente acorde e perceba que a doença persiste.
Infelizmente, estas ações não conformam um conjunto consistente de apoio à produção, mas têm como único objetivo favorecer os candidatos do governo no pleito que se aproxima. Durante três anos enfrentamos taxas de juros que são as mais altas do mundo, câmbio valorizado, carga tributária que chega a 37,82% do Produto Interno Bruto e uma legislação trabalhista que duplica o custo por funcionário empregado. Então, quando chega o ano eleitoral, o governo federal abre as burras para favorecer a eleição do seu candidato, despeja dinheiro na economia e tudo fica bem. No dia 16 de novembro, acordamos e percebemos que tudo continua como estava.
O setor produtivo não pode mais se contentar com o stop and go da política econômica em vigência no País, o que, em última instância, significa ficar no mesmo lugar. Para que o Brasil realmente se desenvolva e alcance o lugar que merece entre os países mais desenvolvidos do mundo, precisamos olhar a longo prazo e definir as bases de uma política econômica que favoreça o desenvolvimento sustentado, o que significa estimular o investimento, a produtividade, o emprego e a renda. A indústria necessita de regras consistentes e comprometidas com a produção, não apenas com os interesses financeiros, que se locupletam na ciranda do alto custo do capital. O mesmo juro que faz a alegria dos rentistas é o que sufoca a produção e encarcera o consumo e o emprego.
Os exportadores de manufaturados – bens de maior valor agregado, que são um dos mais fiéis indicadores de desenvolvimento de um país -estão perdendo competitividade e o Brasil, aos poucos, retoma a trajetória de simples exportador de commodities.
Dados do IBGE mostram que, comparando-se fevereiro deste ano com igual mês do ano passado, houve queda de 0,8% no emprego industrial em todo o País, sendo que as demissões superaram as admissões em nove das catorze regiões pesquisadas. No Rio Grande do Sul a queda foi de 9%, conseqüência sobretudo
do impacto negativo que o real valorizado está provocando nas exportações de calçados, setor que sofreu redução de 23,2% no emprego industrial. No Paraná, a indústria madeireira demitiu até agora cinco mil pessoas, podendo chegar a 20 mil o número de dispensas, caso o câmbio continue desfavorável.
O Brasil está ficando para trás na corrida pelo desenvolvimento. O País perde competitividade a olhos vistos. Dados recentes divulgados pela Confederação Nacional da Indústria mostram que nos últimos dez anos o PIB per capita aumentou 0,7% ao ano no Brasil, em média, contra 2,6% no resto do mundo. No mesmo período, o PIB per capita da Argentina cresceu 2,2%, o do México 2,1% e o do Chile 2,8%.
Isso quer dizer que o mundo – nossos parceiros latino-americanos incluídos – ficou mais rico, enquanto nós nos mantivemos, praticamente, estáveis. Em outras palavras, a distância que nos separa dos demais participantes da corrida pelo desenvolvimento aumentou. Mais uma comparação atesta o aumento dessa discrepância: enquanto a renda per capita da Coréia do Sul e de Portugal, em 2004, alcançava US$ 20.400,00 e US$ 19.250,00, respectivamente, a nossa chegava a US$ 8.020,00. Nossos amigos portenhos, naquele mesmo ano, ostentavam uma renda per capita 50% maior que a nossa: US$ 12.460,00.
Não nos iludamos com as análises fáceis de quem olha apenas o curto prazo. Nossas perspectivas de longo prazo não são tão satisfatórias, a não ser que haja uma correção de rumo na política econômica: que os juros sejam trazidos para níveis compatíveis com o desenvolvimento sustentado da indústria, que a produção e o consumo sejam desonerados da exagerada carga tributária e que o câmbio seja conduzido a um valor que favoreça as exportações de manufaturados.
Rodrigo da Rocha Loures é presidente do Sistema Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).