Nomes aos bois

O Partido dos Trabalhadores (PT), esgotada em poucas horas a esquálida reserva de autonomia em relação às imposições normativas do Palácio do Planalto em questões políticas, viu-se constrangido a colocar a carapuça e abandonar a postura de condenação à permanência do senador José Sarney na presidência da Câmara Alta, pelo menos até que todas as denúncias sobre irregularidades administrativas cometidas por Agaciel Maia e João Carlos Zhogbi, até fevereiro passado os funcionários mais poderosos do Senado, sejam amplamente apuradas e divulgadas à sociedade.

A tentativa de recuperar parte de uma história construída na defesa intransigente da ética e da transparência na política, não poucas vezes de forma desassombrada, resultou em mais uma ignóbel frustração do petismo ortodoxo (os efeitos começam a aparecer nas seções de cartas dos principais jornais), diante da capitulação ante as ordens recebidas da curul governamental. Sarney fica, como sucintamente exclamou O Estado do Paraná em sua apropriada manchete de sábado passado.

E a repentina mudança de rumo (ou de tom discursivo) na disposição até então anunciada pelos integrantes da bancada de senadores petistas, deu-se em face da velada ameaça do coronel maranhense em renunciar ao cargo, deixando implícita a possibilidade do reposicionamento das baterias peemedebistas em relação às eleições presidenciais de 2010.

Os recados diretos que chegaram ao gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, transportando uma carga de convencimento assemelhada a potentes morteiros, davam a entender, sem rodeios, que um altíssimo preço seria cobrado pela retirada do apoio ao senador José Sarney, afinal um personagem egresso do patrimonialismo com história suficiente para mandar erguer um mausoléu destinado à preservação da invejável trajetória política, postando-se por vontade própria no mesmo pedestal ocupado gloriosamente por Rui Barbosa, Rio Branco e José Bonifácio (para citar apenas os que mais se aproximam em grandeza ao novo donatário da capitania do Amapá).

Dizendo de outra maneira, o Planalto foi informado da iminente contrapartida da retirada do PMDB velho de guerra do bloco que pretende transformar a ministra Dilma Rousseff na sucessora de Lula, obrigando a engenharia política do presidente da República, mais uma vez, a apelar para a escada de incêndio. Assim, o discurso intimorato de alguns senadores, especialmente Aloizio Mercadante (PT-SP), passou da água para o vinho com uma celeridade jamais observada no Congresso, erigindo-se como murro de arrimo da casinhola prestes a desabar a “defesa da governabilidade”, mesmo que a tardia descoberta aproxime a ambígua decisão dos senadores petistas da que foi assumida por felpudas raposas da política nacional, à época do naufrágio do governo Collor.

Ouviu-se apenas uma voz solitária, a do senador Tião Viana (PT-AC), condenando a ingerência do presidente Lula em questões internas da bancada de senadores do partido. O senador Tião Viana que fez campanha para a presidência da Casa, mas foi absurdamente preterido pelo presidente Lula, eleitor número um de Sarney para o mesmo posto, tem razão ao considerar incompatível com a trajetória do partido a subserviência que se vê compelido a tributar a um viciado esquema de interesses personalistas. Viana decerto tem dificuldade para tragar o purgativo de que não se deve perder tempo discutindo se determinadas atitudes são ou não coerentes com a história do partido, quando a luta cega ordena salvar os anéis e os dedos.

A questão resume-se da seguinte forma: o PMDB continuará apoiando a candidatura da ministra Dilma Rousseff, ao passo que o PT cerrará fileiras em torno do presidente do Senado. Com o intuito de suavizar as fétidas emanações da elitista conjunção de interesses, Sarney vai propor a abertura de inquérito administrativo para enquadrar as ações dos bois de piranha, Agaciel Maia e João Carlos Zhogbi. O problema mais grave virá se os palafreneiros resolverem dar nomes aos bois.

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