As coisas mudaram radicalmente depois que o Partido dos Trabalhadores (PT) deixou-se enredar de modo bisonho, mas sintomático, nas patranhas do mensalão, sem que nenhum dos integrantes do núcleo central de manipulação do aparelho partidário esboçasse a menor reação à prática que o partido sempre enxergava e vituperava nos adversários. Numa atitude altamente ambígua e comprometedora, o então presidente José Genoino afirmou ter assinado sem ler o pedido de financiamento num dos bancos atraídos para o esquema pelo empresário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza, o inescrupuloso planejador do valerioduto.
Hoje, o partido que pôs em desuso sua maior virtude, ou seja, a ética e a transparência na política, ao que tudo levar a crer, um discurso aparentemente inquebrantável apenas enquanto foi útil para o PT galgar alturas inimagináveis mercê do próprio desmantelamento moral das principais forças do arco partidário brasileiro, debate-se numa crise intestina que o deixa no mato sem cachorro em termos das eleições estaduais de 2010.
Um dos objetivos primordiais do PT é a conquista do maior número possível de governos estaduais, o que resultaria no cálculo dos operadores do partido no provável crescimento numérico das bancadas na Câmara dos Deputados e Senado da República. Todavia, essa predisposição estratégica da direção esbarra na exegese oportunista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de conduzir o partido (mesmo que este não seja o gosto de muitos) a figurar como coadjuvante em coligações preferenciais com o PMDB, arquivando a ideia de eleger governadores estaduais e inchar as bancadas federais.
Para evitar que essa expectativa se torne realidade, mais que depressa controladores do PT no Rio Grande do Sul trataram de antecipar, por aclamação, a candidatura do ministro Tarso Genro (Justiça) ao governo estadual. Das duas, uma: ou o presidente Lula acha que o Rio Grande não mais pertence ao Brasil, ou liberou o partido para apoiar a candidatura do ministro, sabendo de antemão que poderia colher amarga derrota ao insistir na proposta subserviente do colaboracionismo. Nos bastidores, o comentário de maior consistência para nove entre dez petistas de bombacha e lenço no pescoço aponta para o reconhecido desgaste da influência do lulismo na secção gaúcha do PT.
A intenção do presidente Lula é garantir palanques fortes nos estados mais desenvolvidos para a campanha da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, numa disputa que será bastante dura. Para alguns analistas, a disputa presidencial de 2010 será morna sem a presença de Lula, muito embora um especialista em pesquisas, Carlos Augusto Montenegro, diretor do Ibope, diga que “não acredita que Lula transfira votos em quantidade suficiente para garantir, por si só, a vitória de Dilma Rousseff”. A informação está na coluna do jornalista Maurício Dias, na edição dessa semana da revista Carta Capital.
Dias acrescentou que “as pesquisas qualitativas feitas por Montenegro mostram que o eleitor sabe que Lula está pedindo ‘mais oito anos de poder’, além dos oito que já ganhou. Segundo o diretor do Ibope, essas pesquisas revelam uma situação curiosa: o brasileiro gostou da experiência do segundo mandato, mas desconfia do continuísmo”. O recado é claro: o eleitor cansou de ser massa de manobra. Não obstante, o pragmatismo tardio de Lula insiste em priorizar a formação de coligações eleitoralmente viáveis nos estados, a fim de que Dilma tenha alguma possibilidade de vencer a eleição. Tendo em vista que o presidente está pouco interessado na elevação do número de governadores, deputados federais ou senadores petistas em 2010, a decisão momentânea é atrelar o PT ao PMDB nos estados mais promissores, para evitar que num arroubo fisiológico (e não haveria surpresa para ninguém), a banda fisiológica predominante no partido controlado por Renan Calheiros, José Sarney e Geddel Vieira Lima busque o aconchego do ninho tucano. Afinal, o ex-governador Orestes Quércia, dono da legenda em São Paulo, já fez sua opção. Está com José Serra e não abre.