Até quem ainda não aprendeu na escola o que é Reich já sabe: faz 60 anos que a Alemanha capitulava na Segunda Guerra Mundial, faz seis décadas que os terríveis alemães nazistas pereciam, faz cinco dúzias de anos que Hitler – o maior de todos os crápulas – se suicidava e deixava uma dívida impagável com judeus, portadores de deficiência física e mental, ciganos e poloneses. Ok. Mas, responda rápido: os aliados do Holocausto são os únicos responsáveis pelas tragédias do século 20? E por que só eles têm de pedir desculpas?
Os alemães de hoje, que em nada agem como os da década de 40, carregam uma culpa que nem com mil desculpas vai se dissipar: seus parentes do passado foram responsáveis por mais de seis milhões de assassinatos, humilhações, experiências grotescas e trabalhos forçados. É quase a população de Pernambuco. Mas eles têm vergonha do que aconteceu à época de Hitler e não cansam de admitir o erro.
O governo e a população chamam o fim da guerra de ?Dia da Libertação?, fizeram um imenso monumento para homenagear os judeus no centro de Berlim, estão presentes nas comemorações do fim da guerra, fazem filmes retratando o tema, rechaçam os neonazistas que vez por outra tentam perturbar a ordem e trabalham alavancando o país com dignidade. Uma alemã de 17 anos deu entrevista a um jornal brasileiro e revelou que tem vergonha do Holocausto e, por isso, não demonstra nacionalismo. É como se, ainda hoje, carregasse a culpa das tragédias do passado.
Contudo, a história parece que anda esquecida de muitas outras atrocidades cometidas quase no mesmo período da Segunda Guerra. Depois que os alemães se renderam, a turma aliada, comandada por Estados Unidos e União Soviética, invadiu Berlim, que já estava destroçada, e não poupou nem os civis: milhares de mulheres foram estupradas, incontáveis crianças foram assassinadas. A fúria contra Hitler se espalhou até com quem não tinha feito nada. Conta-se que os pais de uma mulher, depois que ela havia sido estuprada em massa por horas, tiveram que implorar para que os vencedores a deixassem amamentar o filho, que estava faminto.
Não podemos nos esquecer também do desastre que foi o lançamento das bombas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Já fazia três meses que a Alemanha assinara a rendição, mas os ?bondosos? aliados tinham que mostrar poder: 110 mil civis morreram com a primeira bomba e 60 mil com a segunda. Sem contar os milhões que foram contaminados com a radiação. Ainda temos a Guerra do Vietnã, o mais longo conflito militar depois da Segunda Guerra. Mais de um milhão de vietnamitas e 47 mil norte-americanos (mais 313 mil feridos) pereceram. Até hoje, o Tio Sam não admite a derrota e nem lembra que usou mais de oito milhões de toneladas de bombas durante o conflito. E a Guerra-ainda-não-resolvida-do-Iraque? Só em 2003 foram cerca de 100 mil mortes (segundo uma pesquisa da revista britânica The Lancet). E nem vou comentar as humilhações ocorridas na prisão de Abu Ghraib, feitas por militares norte-americanos preocupados com as agruras do mundo.
Nesse mundo de poucos anjos, até o Brasil tem suas doses de culpa. Se formos mais longe no passado, na Guerra do Paraguai, da qual até hoje muitos se vangloriam, o País se juntou com Argentina e Uruguai (a mando da Inglaterra) e dizimou 300 mil paraguaios. Trinta mil brasileiros morreram, mas a população do Paraguai, ao final do conflito, ficou tão reduzida que cabia dentro de um campo de futebol de porte médio. Os brasileiros ainda estupraram e espancaram milhares de mulheres e crianças sem perdão. E tudo porque o Paraguai estava prosperando como poucos.
Se a Alemanha não cansa de reconhecer os próprios erros, por que Estados Unidos, Rússia, Brasil, Argentina e Uruguai, só para ficar em poucos exemplos, nunca tiveram que fazer o mesmo? E mesmo se pensarmos no nazismo, por que ninguém fala tão mal de Mussolini, da Itália, que era a favor de praticamente tudo que Hitler fazia? Afinal, assassinatos serão sempre assassinatos, independente do lado que os deuses da vitória estiverem.
Ariane Holzbach é jornalista no Rio de Janeiro.