Na linha do poder

Ninguém duvida que o PMDB seja o maior partido do País e, em assumindo de fato e de direito a condição, tornou-se o fiel da balança da governabilidade. Afinal, os homens públicos que repartem entre si o comando da agremiação, com estrita devoção e parcimônia ainda mais meticulosa, esbanjam experiência na apropriação das vantagens eleitoreiras derivadas da proximidade com o poder.

Aí está quase octogenário, o repaginado senador José Sarney, que desde a eclosão do golpe militar de 1964, sempre apareceu nas primeiras posições do palco com toda a pompa e circunstância indicadas no script para os protagonistas. Presidente do Senado da República pela terceira vez, anos depois de ter presidido a própria, Sarney fez-se cercar por uma brigada de fieis aliados da estirpe de Renan Calheiros (AL), Romero Jucá (RR), Roseana Sarney, Edison Lobão, Epitácio Cafeteira (MA) e Papaléo Paes (AP), além de vários outros senadores que seguem sua orientação política. Um dos novatos é Edinho Lobão, que assumiu como suplente a vaga deixada pelo pai, nomeado para o poderoso Ministério das Minas e Energia por influência direta do imperial grande senhor de São Luís.

No ministério do governo Lula, Sarney conta ainda com o respaldo obsequioso do titular das Comunicações (Hélio Costa), além dos vasos comunicantes que o ministro Edison Lobão faz um inaudito esforço para manter desobstruídos. A única aresta não administrada pelo estilo personalista do senador José Sarney interagir politicamente estava no Ministério da Integração Nacional, na pessoa do ministro Geddel Vieira Lima, que trabalhou abertamente pela eleição do senador Tião Viana (PT-AC) à presidência do Senado. Passada a refrega, Sarney já avisou que vai propor ao ministro a recomposição da coexistência pacífica.

Os outros obstáculos no primeiro escalão se situam na Agricultura (Reinhold Stephanes) e na Saúde (José Gomes Temporão) que aparecem no noticiário dos últimos dias com alguma insistência, citados como candidatos potenciais ao bilhete azul. Temporão, que apesar da filiação no PMDB diz-se pertencer à cota pessoal do presidente Lula poderá perder o cargo a fim de acomodar um petista no primeiro escalão e serenar os ânimos exaltados com a derrota de Viana. Stephanes, segundo os jornais, não estaria agradando o comando partidário por sua indesejável independência de atitudes e descortino administrativo.

No ritmo desta embolada, o grave aleijão do partido majoritário na aliança é não conseguir harmonizar o discurso de suas principais lideranças. Os senadores Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcelos (PE), por exemplo, não necessariamente participam da adoração ao bezerro de ouro do fisiologismo, prática aceita quase sem restrições pela maioria dos componentes do redivivo “centrão”. Há também divergências acentuadas quanto à sucessão de Lula, pois se alguns consideram de bom tamanho a vice-presidência na chapa da ministra Dilma Rousseff, outros reiteram que o partido deve trabalhar desde já pela candidatura própria.

O governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral Filho, cogitado para ambas as alternativas, atualmente faz pregação contemporizadora e anuncia ser candidato à própria sucessão em 2010. Segundo ele a candidata ideal é a ministra-chefe da Casa Civil, com o ministro Geddel Vieira Lima na vice-presidência. O quadro antecipado por Cabral, pelo menos no Rio, fecha com a disposição do PT em não apresentar candidato ao governo estadual. O acordo contaria com a aquiescência do prefeito Lindberg Farias, reeleito em Nova Iguaçu, que partiria para a conquista de uma cadeira no Senado.

No entanto, o deputado Michel Temer (SP), presidente da Câmara e da executiva nacional, não descarta a probabilidade do PMDB evoluir para a escolha de candidato genuíno. A próxima etapa é a renovação do comando nacional que Sarney sugere antecipar para esse ano, em busca de maior espaço. É briga de cachorro grande.

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