Clemente Ivo Juliatto
Ao começar novo ano acadêmico, considero importante a recomendação de Clarice Lispector: ?Mude, mas mude devagar (sem atropelar); o que importa é a direção, não a velocidade?. O cargo de reitor para o quadriênio 2006-2009 me transforma no capitão de um barco, acalentado por uma utopia, vazio de ilusões, mas carregado de esperança e de coragem para conduzi-lo a bom porto. Consola alunos, professores e gestores a afirmação d e Schopenhauer: ?A sabedoria já pertence àqueles que a buscam?. Portanto, tenho consciência clara de que em todas as instâncias é preciso mudar e inovar, mas sem desestabilizar.
A universidade é instituição transmissora de ciências, construtora de conhecimentos e formadora de consciências. A universidade deve ser o farol do conhecimento, da verdade, da sabedoria e do humanismo. A ela compete cuidar do espírito de modo integral e do futuro. Expressiva é a imagem do educador inglês Alfred North Whitehead quando compara a universidade a uma corrida de revezamento, em que a tocha olímpica é passada de mão em mão, ou seja, de geração em geração, para iluminar os caminhos da humanidade. Espero que, na noite das crises por que atravessam as pessoas e a sociedade, a universidade represente sempre um luar de esperança. Para essa desafiadora missão, não lhe pode faltar a coragem ante o imprevisível, a coerência da autocrítica e a disposição de inovar-se, de desconstruir-se para reconstruir-se. O Brasil precisa de uma universidade aventureira da verdade e promotora da sabedoria.
Onde encontrar a sabedoria?. Precisamente, este é o título de um recente livro de Harold Bloom. O autor a procura nas lições dos grandes mestres da literatura. Mas um provérbio persa nos alerta: ?Procura a verdade na meditação, e não nos livros mofados. Quem quer ver a lua olha o céu, não a lagoa?. Ao procurar responder a esta pergunta -onde encontrar a sabedoria? – arriscaria acrescentar que devemos buscá-la também na universidade, nas lições dos mestres.
É ocasião de reiterar minha admiração pelo saudoso papa João Paulo II, uma das mais expressivas lideranças do nosso tempo. Era um papa universitário, não só por ter sido professor de faculdade na Polônia, mas por ter sido um intelectual que nos legou importantes lições. A PUCPR e os Irmãos Maristas, em particular, lhes são muito gratos por três razões especiais.
Foi ele quem concedeu, em 1985, o honroso título de pontifícia à nossa universidade. É de sua autoria a carta magna, Ex Corde Ecclesiae, sobre as universidades católicas, documento que orienta o nosso fazer universitário. Foi ainda João Paulo II quem declarou santo, em 18 de abril de 1999, o educador Marcelino Champagnat, fundador da Congregação dos Maristas e inspirador e padroeiro da PUCPR. Este papa deixou para professores e estudantes uma mensagem que é um verdadeiro programa de ação: ?Fazer da universidade um lugar onde o ser humano encontra rumo para o futuro, inspiração para o serviço efetivo à sociedade, formação integral e ambiente em que o conhecimento é plenamente cultivado?. (Homilia no Jubileu dos Professores Universitários, em 10/setembro/2000.)
O atual pontífice Bento XVI também é um papa universitário. Foi um dos professores universitários mais jovens na Alemanha e ensinou em quatro instituições, chegando a ser vice-reitor de uma delas. É um intelectual brilhante. Cresceu ainda mais no meu conceito quando o vi afirmar que figuras como Thomas Morus e John Henry Newman são para ele grandes modelos. Confesso que o são também para mim. Estas duas ilustres figuras foram homenageadas com a denominação de dois auditórios no campus Curitiba. A mensagem do atual papa é bem oportuna: ?É importante que em uma universidade católica não se aprenda só a preparação para uma profissão. Uma universidade tem de ter como fundamental a construção de uma interpretação válida da existência humana?. (Encontro com os jornalistas da Agência Zenit, 19/abril/2005.)
Clemente Ivo Juliatto é reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e integrante da Academia Paranaense de Letras.