Mote de campanha

Em todos os tempos o exercício da política tem servido como uma das principais forças de atração de personalidades, que por razões múltiplas alcançaram notoriedade acima da média. É o caso de esportistas, apresentadores de televisão, locutores de rádio, cantores e professores de cursinho, entre outras carreiras profissionais de sucesso. Os brasileiros ainda não esqueceram do médico-cardiologista, o famoso “doutor Enéas”, quarto colocado numa das eleições presidenciais vencida por Fernando Henrique Cardoso, oportunidade em que deixou para trás inclusive o ex-prefeito da capital paulista Paulo Maluf.

Nas eleições seguintes (2002), Enéas disputou uma vaga na Câmara dos Deputados, inscrito pelo estado de São Paulo, sendo que a extraordinária votação obtida forneceu ao partido o quociente necessário para abocanhar três ou quatros cadeiras na instituição. Poucos, no entanto, conseguem lembrar o nome do partido de Enéas e dos companheiros de chapa eleitos com exíguas quantidades de votos pessoais.

Nos bastidores do Congresso corre a notícia de que o Partido da Solidariedade (PSOL) pensa seriamente em lançar candidato a uma vaga de deputado federal o delegado Protógenes Queiroz, ex-chefe da Operação Satiagraha, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas. Segundo líderes do citado partido, o delegado da Polícia Federal, afastado da atividade profissional em face das suspeitas de ter realizado escutas telefônicas não autorizadas pelo Poder Judiciário, a fim de bisbilhotar a vida de figuras relevantes da República, teria potencial para receber até 1,5 milhão de votos candidatando-se, por exemplo, em São Paulo, o maior colégio eleitoral do País.

Na verdade, sabe-se que além do PDT, o PSOL saiu na frente na corrida pela conquista da filiação de Protógenes, tanto que já o convidou para inúmeras reuniões realizadas pela agremiação. Os jornais informaram, inclusive, que as passagens aéreas utilizadas para os deslocamentos do delegado saíram das cotas dos parlamentares pertencentes à legenda, reforçada pela migração de ex-petistas comandados pela ex-senadora Heloisa Helena (AL), atualmente vereadora em Maceió. Os deputados federais Luciana Genro (RS), Ivan Valente (SP) e Chico Alencar (RJ) compõem a aguerrida bancada na Câmara.

O delegado federal com fama de “justiceiro” e caçador de criminosos do colarinho branco acabou afastado das funções pelo acúmulo de indícios de conduta não permitida aos agentes da lei. Com base na popularidade de Protógenes ante o público, em especial os jovens, julgam os operadores do partido que ele reúne condições para obter copiosa votação, suficiente para garantir a própria vaga e, ainda, para arrastar alguns companheiros beneficiados pelo excesso de votos de legenda.

Mesmo sem estar concretizado, o plano entusiasma a bancada federal do PSOL diante da probabilidade real de dobrar o número de integrantes, num estudado esforço puxado pelo potencial eleitoral atribuído ao delegado Protógenes Queiroz. Os críticos entendem, por sua vez, que esse potencial ainda está no terreno das hipóteses e, portanto, ainda é muito cedo para ser avaliado de forma exagerada.

E, como o partido não tenciona oferecer de bandeja argumentos contrários para os demais blocos partidários, sobretudo a base governista, a bancada federal deverá apresentar à Mesa Diretora da Câmara, provavelmente hoje, uma proposta para a criação de regras mais claras para o uso de passagens aéreas pagas pela Casa. O PSOL não negou ter concedido ao delegado bilhetes para as viagens realizadas pelo País, mas aproveitou a chance oferecida pelos descuidos cometidos por alguns parlamentares para exigir a adoção de normas que eliminem a ocorrência da prática definida pelo deputado fluminense Chico Alencar como “tráfico de bilhetes aéreos”.

Não será surpresa, portanto, se o cidadão Protógenes Queiroz transferir sua atividade para o plenário da Câmara dos Deputados, a partir de fevereiro de 2011, no início da nova legislatura. O mote da campanha está pronto: “Querem transformar o banqueiro bandido em vítima e o investigador em investigado. Mas o povo não é bobo”.

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