O eco dos cantos gregorianos encantou os presentes e era ouvido no velho largo e parte da Avenida Sete, em Salvador. Comemoravam-se, em julho de 2007, os 425 anos da fundação do mosteiro de São Bento, na Bahia. Profundamente emocionado, por vinculação histórica com a ordem beneditina, assisti à celebração ministrada pelo arquiabade de São Bento, dom Emanuel D?Able do Amaral, fundamentada na ?Ora et labore? (Oração e trabalho).
Fundada em 1549, a cidade de Salvador seria por mais de dois séculos a capital do Brasil. Em 1582, 33 anos depois, o edifício do mosteiro foi construído em pouco tempo e, em 1584, o convento era elevado à categoria de abadia. Em 1827, 44 anos depois, era criada a província beneditina do Brasil, incluindo os mosteiros de Olinda e Rio de Janeiro. No mesmo ano, o mosteiro de Salvador recebeu o título de arquicenóbio do Brasil. Em 1998, exatamente 370 anos após, o papa João Paulo II elevou o mosteiro à condição de arquiabadia.
No século XVI, os colonos que chegavam à terra recém-descoberta desejavam ter a presença das ordens religiosas com que conviviam em Portugal. Lá existiam 20 abadias beneditinas. Hoje, em todo o mundo, existem 200 abadias beneditinas e a da Bahia é a única da América Latina.
A fé cristã exige tolerância com as fragilidades humanas e solidariedade entre todas as criaturas, como louvor à vida, sendo fundamental acreditar na vida antes da morte. Muito jovem, militante da JEC (Juventude Estudantil Católica) e da JUC (Juventude Universitária Católica), aos domingos, a missa das 18 horas, no Mosteiro de São Bento reunia a Bahia pensante com formação cristã. O grande pregador com pensamento claro e palavra certa contra as injustiças era o abade dom Jerônimo Sá e Cavalcante. Era uma figura de asceta, magro nos seus 56 quilos de peso, mas que se transformava em gigante no púlpito. Enfatizava que Jesus Cristo, ao se rebelar contra as injustiças do seu tempo, no apogeu no Império Romano, em função dessa ação sofreu o martírio.
Parecia prever o que estava por acontecer. Quando do golpe militar de 1964, o velho mosteiro foi abrigo seguro e a casa de resistência para jovens universitários e intelectuais perseguidos pelos raivosos golpistas baianos.
Prior dos beneditinos, dom Jerônimo Sá e Cavalcante, saudoso amigo, morreu em janeiro de 1975. Por injunção do destino estava em Salvador naquele verão. O seu corpo repousa no jardim do mosteiro e foi conduzido do adro central ao local pelo abade dom Timóteo Amoroso e pelos amigos Chico Pinto, então deputado federal, Sérgio Gaudenzi, Fernando Schmidt, Adelmo de Oliveira e este escriba.
Foram lembranças que afloraram com enorme nitidez na mente enquanto assisti à celebração histórica dos 425 anos da fundação do Mosteiro de São Bento. Reforçada pelas reflexões de dom Gregório Paixão, bispo auxiliar de Salvador, para quem a vida beneditina busca a sobriedade em relação à liturgia, com envolvimento nos problemas da sociedade contemporânea quando necessário. Sendo preciso se afastar de tudo para avaliar a realidade, como fazem os monges beneditinos. Sentenciando: ?Nessa sociedade de velocidade, não nos resta tempo de nos encontrarmos. O homem é lobo do homem. Só neste momento de reflexão, de busca profunda pela fé é que conseguimos nos dar valor e conseqüentemente valorizar o próximo?.
A educação e a formação moral emanadas dos colégios beneditinos têm a larga visão de grandes humanistas. Enfatizando na solidariedade e em um altruísmo fundamental a cada um de nós. É o amor altivo e lógico que vê na pessoa humana a imagem de Deus. Infelizmente vivemos um tempo de fé mercantilista que agride o mundo cristão consciente. A antítese daquilo que foi o grande e fecundo pontificado de João XXIII com a abertura ecumênica e suas encíclicas sociais.
Ecumenismo presente no Mosteiro de São Bento, onde grupos humanistas cristãos e não-cristãos encontram há mais de quatro séculos as suas portas abertas para celebrar que o amor ao próximo é compromisso com a vida.
Hélio Duque é doutor em ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Foi deputado federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.