O semblante do meu amigo irradiava aquela certeza infalível, sempre acompanhada de um sorriso melífluo que mal chegava à comissura dos lábios, enquanto o olhar pervagava as lombadas dos encorpados volumes que compunham sua seleta biblioteca, para depois concentrar-se nas volutas da fumaça tênue e azulada que brotava do inseparável cachimbo de carvalho.
Era uma nevoenta manhã do final de inverno e meu amigo estava envolto numa pesada manta de lã, além de atirar, com a displicência de experimentado foguista, pequenas achas destinadas a manter em bom volume as trêmulas chamas de nossa lareira.
Uma chávena esvaziada de chá indiano jazia sobre as folhas amarfanhadas de um jornal, na pequena mesa ao lado da poltrona ocupada por meu amigo junto à ampla janela, fechada naquele momento, porque o preguiçoso sol hibernal teimava em permanecer atrás das nuvens.
Eu o observava de soslaio, convencido que sua prodigiosa mente estava em plena operação, certamente antevendo o deslinde de um daqueles casos intrincados que o inspetor MacDonald, da Scotland Yard, quando seu próprio esforço dava em nada, a contragosto trazia para ele.
– Se é assim, o mistério está explicado. Não pode haver resposta mais conclusiva! – vociferou, mesmo não sendo esse seu costume. E mais não disse.
Depois de alguns minutos, como nada mais fosse acrescentado à enérgica observação – e eu estava seguro que se referia a algum problema grave -, arrisquei-me a perguntar:
– Sobre o que está falando? O caso do médico ruivo de Yorkshire não foi resolvido e o assassino preso pela polícia? Ou conseguiu escapar da prisão?
Meu amigo parece não ter ouvido minhas palavras, ou se as ouviu, não deve ter dado a elas a menor atenção. Prosseguiu mergulhado em seus próprios pensamentos, mas com aquela excitação característica que somente transparecia em seus melhores momentos.
Uma freada brusca acompanhada de buzina estridente soaram lá embaixo, na rua, e algumas vozes raivosas também se fizeram ouvir. Logo o apito de um guarda comunitário parece ter posto os ânimos no devido lugar. E o silêncio voltou.
– Absolutamente certo. Não sei como não se descobriu isso antes, já que é tão elementar. É tão claro como o professor Moriarty era o chefe da quadrilha que roubava quadros do Museu de Londres, até que eu o pegasse com a boca na botija. Não posso crer como custaram tanto a descobrir o culpado do fracasso atordoante de um governo inteiro…
– Desculpe, Holmes, mas você sabe que seu raciocínio é muito rápido para minha parca compreensão. Por favor, queira dizer a que assunto se refere? Aos herdeiros dos Baskerville? Ao imperador da Boêmia? Afinal, que raio de governo é esse? – obtemperei.
Meu amigo apontou o indicador para as folhas do jornal. Aproximei-me e percebi que não era nenhum dos diários publicados em Londres. A única palavra que reconheci foi Brasil. E fiquei ainda mais estupefato.
– Calma, homem. O caso não é tão feio assim. A notícia estampada nesse jornal que algum turista abandonou num banco da aprazível área que é hoje o cais do Tâmisa, e eu peguei, diz que o ex-diretor dos Correios arrependeu-se das mentiras gravadas, confessando ter sido ludibriado por empresários corruptos. O governo Lula está salvo, porque afinal tinham dado ao funcionário a ninharia de três mil reais… umas 500 libras, se tanto… e ele foi exonerado imediatamente!
O habilíssimo Sherlock Holmes continuou sua aula afirmando que o único erro dos pseudo-empresários foi tentar comprar a influência de um diretor dos Correios, instituição pública cuja confiança supera em muito o que se pensa de homens públicos, religiosos, militares, dirigentes de clubes de futebol e, especialmente, de alguns ministros e deputados estaduais de Rondônia.
– Mas você descobriu tudo nesse jornal de uma semana atrás? – indaguei com minha proverbial parvoíce.
– Meu caro Watson, você precisa botar essa cachola pra funcionar. Nossos próprios jornais também falam acerca do Brasil, sobretudo em se tratando de corrupção. Sabe, além do futebol eles são invencíveis também nesse estranho esporte. E essas coisas, você deveria saber, correm o mundo.
– Enfim, como se chama o tal ex-quase corrompido, que passa a merecer uma estátua?
– Não estou exatamente certo, mas tem nome algo extenso: Roberto Romero Maurício Jefferson Marinho Jucá. Deve pertencer a alguma família de sangue azul – disse, e voltou a triscar a pedra do isqueiro sobre a boca do cachimbo.
Ivan Schmidt é jornalista.