Ivan Schmidt

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O PT não está a fim de criar embaraços à reeleição de Lula. Vai fazer das tripas coração para evitar, se é que isso é possível, quaisquer marolas com tendência a se transformar em ondas fortes e ameaçadoras, porventura arremetidas no mar até agora tranqüilo em que navega o barquinho do ex-metalúrgico.

A executiva nacional se reuniu por esses dias e tomou a decisão de avisar companheiros País afora, sobre quão inoportuna é para os planos eleitorais do partido e, nesse caso, forçoso é compreender que a eleição é a de Lula, a movimentação em torno de candidaturas próprias aos governos estaduais.

Ora, ninguém desconhece a realidade vivida pelo PT no Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, para ficar apenas com esses exemplos, importantíssimo território geoeconômico e político sobre o qual o partido tenciona estender seu comando. No Rio Grande do Sul, trata-se de questão de honra e sobrevivência da legenda, a recuperação do governo, bem como a manutenção da Prefeitura de Porto Alegre e a reconquista das administrações municipais de Caxias do Sul, Pelotas e outras cidades de grande porte.

Este é um complicador imediato que os dirigentes petistas precisam enfrentar. O argumento inicial é que a arregimentação partidária nos estados e, mesmo as promissoras perspectivas de afirmação eleitoral aqui e ali, não devem perturbar o aparato montado em torno da pessoa de Lula.

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O PT faz questão de tornar bem clara a disposição de manter em seus cálculos, para 2006, o peso não desprezível de aliados como PMDB, PTB, PL, PP e quem mais se habilitar à corrente atual. Por esse motivo, os líderes estaduais estão sendo aconselhados a reduzir a temperatura de seus discursos pela autonomia das decisões e solução de continuidade de alguns conchavos que azedaram com o passar do tempo.

Pré-candidatos do porte de Tarso Genro e Raul Pont, no Rio Grande; Paulo Bernardo, no Paraná; Aloizio Mercadante, João Paulo Cunha e Marta Suplicy, em São Paulo; Wladimir Palmeira, no Rio de Janeiro, e Patrus Ananias, em Minas Gerais, não terão como continuar evoluindo politicamente em seus pagos, caso a justa pretensão esbarre na sustentação do interesse maior, qual seja a reeleição de Luiz Inácio.

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Não será simples tarefa para casa passada pelo mestre-escola a alunos exemplares. Em graus variados de intensidade, o certo é esperar por reações de hombridade e determinação política. A história do partido está prenhe de evidências quanto ao escopo final da chegada ao poder nos três níveis da gestão pública, mas não ampara a menor indicação de que deveria estacionar num objetivo isolado – a reeleição do presidente – remetendo-se a um hipotético purgatório eleitoral as inúmeras figuras regionais talhadas para a vida pública, cuja contribuição para o reconhecimento da relevância do Partido dos Trabalhadores no arco político nacional é fato inegável.

Destarte, restaria a esses homens e mulheres que tanto lutaram, desafiando o ridículo e o asco da sociedade por levantarem a bandeira socialista num ambiente de arraigados sentimentos conservadores, sentar-se à beira do rio e chorar, como escreveu Paulo Coelho.

A visão estrábica dos principais operadores políticos do presidente necessita urgente correção. Apesar de constituir meta importante, a reeleição de Lula em condições similares a 2002, mesmo com pesquisas favoráveis, não está garantida e tampouco deverá ser a missão exclusiva do PT. Aliás, o mais factível é transformar-se em ruinosa missão suicida. José Genoino, José Dirceu e Antônio Palocci (dizem que esses dois brigam de foice pela indicação à presidência em 2010), não são proprietários do partido, mas agem como se fossem.

Essa talvez seja uma das muitas explicações para a enjoativa crise vivida por um partido inexperiente no exercício do poder.

Ivan Schmidt é jornalista.