Ariane Holzbach

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Enquanto nossas crianças brincam o dia todo por causa das férias de meio de ano e nossos políticos correm para entrar em ?recesso parlamentar?, a França celebra uma das mais importantes datas do mundo moderno: a Queda da Bastilha. Dia 14 de julho os franceses comemoram o fim do absolutismo, conseguido depois de muita, mas muita luta e contestação. Agora que você já relembrou os tempos de escola, responda: e você, brasileiro, que tipo de luta anda travando para melhorar o seu País?

Se você responde que passa as noites assistindo ao Jornal Nacional, vendo as imensas reportagens que narram casos de corrupção, pedidos de propina, crises governamentais, dinheiro escondido em malas e cuecas e a mistura quase pornográfica de religião com política e muitos milhões de reais, sinto lhe dizer que não é suficiente.

Se você gasta minutos ou horas preciosas do seu dia pesquisando a crise política que assola nosso País lendo artigos, revistas e pesquisando em sites, continuo afirmando que não é suficiente. Se você paga as contas em dia, procura os produtos mais em conta, esforça-se para que sua família não passe nenhum tipo de privação e faz de tudo para ser competente no trabalho, insisto em afirmar: ainda não é o suficiente. Sabe por quê?

Antes de responder, cabe fazer uma comparação. Os franceses comemoram a Queda da Bastilha, ocorrida em 1789, porque é a data mais representativa da mobilização popular contra o regime imposto aos habitantes da época. A Bastilha abrigava prisioneiros políticos que iam de encontro ao que regia o rei absolutista. Trata-se de um dos dias mais importantes da Revolução Francesa, acontecimento que simplesmente influenciou de forma direta, aos poucos, o regime governamental de todos os países da Europa e, assim, também das Américas. Pode-se dizer que a França mudou as referências e a forma de pensar do mundo, especialmente do mundo ocidental, em poucas décadas.

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Se olharmos agora para o Brasil do século 21, este mesmo, em que a maioria de seus habitantes fica à beira de um ataque de nervos toda quarta-feira e domingo, quando tem jogo de futebol, percebe-se que a maneira de agir contrasta demais com os franceses que ajudaram a erguer a democracia moderna. Não se está querendo afirmar que agora, para amenizar a roubalheira que anda tomando conta de inúmeros estados nacionais, todos tenham que pegar em armas, adentrar a uma prisão qualquer e soltar todo mundo ou mandar governantes para a guilhotina.

A diferença que se quer reforçar é que se por um lado os franceses viviam informados, liam tudo que podiam, tentavam sustentar a família e formavam opinião, por outro lado cada habitante se sentia responsável em ir atrás de mudanças. As dificuldades financeiras que assolavam tantos pré-revolucionários não os impediam de lutar pelo que acreditavam.

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No Brasil de hoje, ao contrário, o habitante comum não se sente responsável por nada que acontece no cenário político nacional, nem mesmo sabendo que colocou no poder aquelas pessoas que, hoje, mancham ainda mais a história do País. Acostumou-se a saber das coisas e se limitar a emitir opinião, a falar mal de tal político, a repetir que está decepcionado com tal partido e a esbravejar impropérios que diria se estivesse cara a cara com o suspeito de corrupção. A culpa passa bem longe do cidadão, de mim e de você.

Mas, veja bem. Afirmar que todos precisam ter consciência de que, em certa medida, também são responsáveis não é o mesmo que formar exércitos e convocar os insatisfeitos para a luta, como fizeram os franceses. Àquela época, a luta armada foi a forma que os habitantes encontraram para arrumar a casa. E foi o que trouxe maiores resultados – embora, é preciso reforçar, tenha sido no contexto histórico em que estavam. Hoje, claro, a situação é outra e, por conta disso, pegar em armas não é nem de longe a melhor opção.

Existem formas atuais de se lutar a favor do que se acredita. Você, por acaso, lembra o nome do vereador que colocou no poder e para o qual você precisa trabalhar horas por ano para pagar seu salário? Já pensou em cobrar explicações ou posicionamentos, aí na sua cidade, do partido que o decepcionou? Imagine o que aconteceria se um grupo de um bairro, colégio ou empresa se juntasse para cobrar um posicionamento sério contra a roubalheira por parte dos políticos locais. Quantas vezes você acompanhou, logo aí, na Câmara da sua cidade, votações que podem mudar a vida de todos? E mais: não é incoerente falar mal de determinado político e continuar usando a camisa que ele lhe deu na última campanha eleitoral? Ou trabalhar para o partido o qual ele integra, só para ganhar R$ 10,00 por dia e comprar pipoca na esquina? E ficar sabendo de atos ilícitos que acontecem e manter segredo, com medo de represálias? O buraco está cada vez mais fundo, mas as ações podem fazer muito mais que milhões e milhões de palavras. Então, decente trabalhador, mexa-se!

Ariane Holzbach é jornalista no Rio de Janeiro.