Meu desencontro com Zé Kety

Confesso que não sou de Carnaval nem na teoria quando mais na prática, mas me veio à mente o verso ?mais de mil palhaços no salão?, imagem que vem a calhar, de autoria de Zé Kety no antológico samba Máscara negra, belo sucesso de Carnaval vai para uns trinta anos ou mais.

Um dia vi o Zé na Cinelândia, quando o Rio ainda era um lugar tranqüilo para se visitar e o centro ainda freqüentado por artistas populares, jornalistas, escritores, craques do futebol, vedetes do teatro de revista, gente das escolas de samba, passistas e figuras da noite, como se lia nas colunas de entretenimento que todo jornal publicava, a exemplo de ?Rio à noite?, do Sérgio Bittencourt.

Zé Kety, num impecável terno de linho branco, chapéu e sapatos idem, levava um papo (na aparência muito íntimo) com uma loira sensacional, na calçada em frente a um dos inumeráveis cinemas que acabaram legando o dístico tradicional àquele pedaço central do Rio antigo.

Muitos anos depois vi-o novamente, dessa vez na rodoviária paulistana do Tietê. Alquebrado, entrado em anos, a carapinha esbranquiçada, não mais com o impecável terno de linho 120, mas trajando uma roupa amarfanhada e, como sempre, o que parecia ter sido sua marca registrada, o pequeno chapéu de abas estreitas, já gasto e ensebado. O Zé caminhava sozinho (não havia nenhuma loira estonteante nas proximidades), suponho, na direção dos guichês de passagens para o Rio.

O que pensaria aquele grande músico popular no momento – já perdido no tempo – em que cruzava o largo saguão da rodoviária de São Paulo? Lembro de ter percebido em seu semblante tristonho (ou teria sido preconceito de minha parte?), um esgar de melancolia e acabrunhamento, quem sabe, ao repassar fugidios vislumbres de fases mais faustosas de sua carreira. Quando era recebido e acompanhado com festa, quando tinha o nome publicado nos jornais e os sambas gravados pela RCA Victor, na interpretação de famosos cantores da Rádio Nacional.

Jamais saberei, pois não tomei a iniciativa de puxar conversa com o compositor popular, perguntar o que fazia em São Paulo, falar de velhos sambas e carnavais que ficaram na história. Tampouco, já disse acima, sei por que me lembrei agora desse encontro fortuito, eu que não sou de Carnaval e aprecio música popular somente no exíguo limite dos que não pretendem ficar absolutamente por fora.

Assim, além de ficar para sempre ignorante do que Zé Kety estivera a fazer em São Paulo, também perdi a oportunidade de pegar com ele um dos inumeráveis autógrafos de personalidades de vários campos, que poderiam rechear minha não pequena mas inexistente coleção.

Uma tarde de antanho desabei quase literalmente na presença de Juscelino e Tancredo Neves, nesse mesmo Rio de surpresas tantas, num velho prédio da Rua da Alfândega. Saí sem os autógrafos.

Outra vez, um domingo à noite num hotel em Londrina, não sei que inibição me tolheu e impediu de cumprimentar o então comentarista de futebol Ademir de Meneses, o ?Queixada? do Vasco da Gama e da seleção brasileira de 50, um dos maiores artilheiros de todos os tempos, ídolo da minha adolescência, que me fez torcedor roxo do expresso da vitória, o timaço de São Januário.

Mas, a melhor de todas vai agora. Certo dia, em Porto Alegre, início dos anos 70s, na Livraria do Globo, Rua da Praia. Um senhor de raros cabelos encanecidos, desempenado e de ar arguto, em pé diante da estante de dicionários, folheando com atenção um dos volumes ali expostos. Era o grande romancista Érico Veríssimo, um dos maiores que o Brasil já teve, ele próprio um dos responsáveis pela projeção da citada editora dentre as mais importantes do País nos anos 40s e seguintes, graças ao descortino de traduzir e editar autores como Marcel Proust, Dostoievski e Edgar Allan Poe e tantos outros completamente desconhecidos no Brasil.

Fiquei olhando o carinho com que o antigo funcionário da casa segurava o livro nas mãos, folheando-o, ele que já havia percorrido longa estrada de habilíssimo contador de histórias e que ainda escreveria romances memoráveis como Incidente em Antares, embora não tivesse tempo de concluir seu maior legado, o livro de memórias Solo de clarineta, que só chegaria ao segundo volume. Fiquei também sem o autógrafo e, entre milhares de leitores de Érico, órfão do que mais (e tanto) pensaria sobre literatura, arte, filosofia e política, enfim, sobre essa coisa absurda que insistimos em chamar de humanidade.

A propósito dessas linhas desconexas e sem a menor ligação entre um assunto e outro, que se atropelaram como um samba sem pé nem cabeça, cujo ritmo foi atravessado, a única explicação que me salva é que as escrevi no auge do feriadão em que mais uma vez o Brasil cruzou os braços.

Tocou-me uma breve percepção que nem os eventuais leitores estão a fim de encarar algo de maior sustança, a bem da verdade e desde sempre, uma coisa rara nesse pequeno quadro do jornal. Assim, dar-me-ei por satisfeito se a curiosidade do título levar alguém a ler, pelo menos, os primeiros parágrafos.

Ivan Schmidt é jornalista.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google